27/03/2020 às 14h30min - Atualizada em 27/03/2020 às 14h30min

Zumbi

Qual o impacto da paralisação de nossas atividades diárias no contexto social? Por quanto tempo, poderemos ficar em nossas casas com garantias mínimas de sobrevivência? E a grande questão de morto ou vivo reaparece em nossa vida adulta, sem ares de brincadeira.


Morto, vivo, vivo, morto, morto-vivo, vivo-morto, eu acreditava que era apenas uma brincadeira de criança que ocupava aquelas noites, pelas calçadas da rua. Nunca imaginei que era um treinamento para a sensação que, muitos de nós, estamos  no cenário da pandemia do coronavírus.
Abaixar e levantar não eram nada, se comparado ao sentimento de desamparo que toma conta de tantos de nós, apesar do preparo de atleta que aquelas flexões davam às nossas pernas.
Apesar da vida ser feita de imprevisíveis, estamos  programados para viver a previsibilidade, por mais loucas que sejam. Acordar muito cedo, fazer várias coisas ao mesmo tempo, correria o tempo todo, dormir tarde; podem parecer insanidades mas, é a rotina de boa parte das pessoas e, de repente, para tudo.
Não parar para as previsíveis coisas imprevistas da vida como o sepultamento de alguém amado, um colapso depressivo, ou coisas previstas e prazerosas como um descanso de férias; parar para tentar, seguindo instruções de especialistas no assunto, evitar propagação da morte.
Em alguns momentos da história da humanidade, fatos como esses aconteceram, mas nós não estávamos lá, a força midiática não era tão intensa. Hoje, é um instante ímpar.
Quando aceitamos o isolamento social horizontal, viemos para nossas casas e, sem saber o que pensar ou por quanto tempo deveríamos ficar, foi como se tivessem decretado um feriado prolongado imprevisto.
Os dias foram passando e além do vírus começamos a sentir o estresse do imponderável, a sucessão dos dias e informações complementares, apesar de parecerem contraditórias.
Qual o impacto da paralisação de nossas atividades diárias no contexto social? Por quanto tempo, poderemos ficar em nossas casas com garantias mínimas de sobrevivência? E a grande questão de morto ou vivo reaparece em nossa vida adulta, sem ares de brincadeira.
Se continuo uma atividade normal, considerando a pandemia um exagero, posso ser contaminado, contaminar outros, espalhando a morte, mas se nos mantivermos dentro de nossas casas, sem produzir, como nos manteremos vivos?
A questão não é individual, faça cada um o que quiser, as consequências serão coletivas. Ubuntu, sou porque somos, se não for o coletivo, o individual também não existe.
Quem está dentro de casa no isolamento social não consegue se sentir vivo, muitas dúvidas, inquietações, incertezas, quem continua em suas atividades, por serem essas essenciais, não pode se considerar morto. Os mortos-vivos ou vivos-mortos estão dentro de todos nós.
A ignorância, em seu sentido literal, significa não conhecer, não saber sobre determinada questão, nunca nos sentimos tão ignorantes em nossas vidas. Nunca necessitamos tanto de uma certeza em meio ao turbilhão de dúvidas.
Nosso medo não está apenas no morrer, mas, sobretudo no matar. Matar pela disseminação do vírus que pode ser letal para alguns, mesmo que não seja para mim; matar por não produzir numa sociedade capitalista de consumo, matar por divulgar informações que nem nós mesmos temos certeza de serem verdadeiras.
Como nos sentimos vulneráveis, não apenas ao vírus, mas a todas as questões que envolvem a vida, estamos mortos-vivos ou vivos-mortos, zumbis numa época na qual, apesar de sermos todos a favor da vida, sentimos de forma generalizada, tão forte, o cheiro da morte.
Desculpem por não ter conseguido ser otimista, diante da realidade, a cronista sucumbe zumbi.
 
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