08/04/2020 às 09h07min - Atualizada em 08/04/2020 às 09h07min

Via sacra, via crucis: o doloroso caminho da crucificação: uma versão pandêmica

Dividido em quinze partes, chamadas de quinze estações, o sofrimento de Jesus é refeito através de orações e meditações. No momento atual achei propício aproveitar para intertextualizar, sem nenhuma pretensão gloriosa, apenas usurpando mais uma vez o contexto. Luiz Fernando Veríssimo se denominou o gigolô das palavras, talvez eu esteja sendo apenas uma cafetina da situação.

Durante milhares de anos, no período da quaresma para os católicos, refazer o caminho de Jesus para o calvário é uma tradição. Dividido em quinze partes, chamadas de quinze estações, o sofrimento de Jesus é refeito através de orações e meditações.
No momento atual achei propício aproveitar para intertextualizar, sem nenhuma pretensão gloriosa, apenas usurpando mais uma vez o contexto. Luiz Fernando Veríssimo se denominou o gigolô das palavras, talvez eu esteja sendo apenas uma cafetina da situação.
As quinze estações serão aqui representadas por quinze momentos vivenciados durante esses últimos quatro meses, no mundo todo, mas considerando sempre a posição de brasileiros que somos.
Na primeira estação aparece um vírus diferente na China, mas não damos atenção porque não temos nada com isso. A China é para lá da Cochinchina e temos muitas coisas importantes para nos preocupar: festas de fim de ano, programação das férias, etc, etc.Felíz do homem que vive egoísticamente, sem se preocupar com os outros.
Na segunda estação o vírus chega no Irã, mas a gente nem sabe que existe um lugar com esse nome, nem damos conta da notícia.A ignorância nos faz mais leves e tranqüilos, sem preocupações alheias.
Na terceira estação o vírus começa a circular pela Europa, mas onde é a Europa? Mares e oceanos nos separam e a vida não pode parar, mesmo ainda não tendo consciência do que seja a vida. A distância nos livra do sofrimento.
Na quarta estação, a Europa ganha o nome de Itália, algumas pessoas começam a serem contaminadas, mas nada com que devamos nos preocupar. População idosa, clima frio, somos muito diferentes e seguimos a rotina. O coração sábio segue seu destino.
Na quinta estação, temos a primeira queda, o vírus chega ao país, trazido por ricos que circulam pelo mundo todo sem nenhuma precaução, coisa de gente pretensiosa. Ainda não é o nosso caso.Bem-aventurados os pobres, não viajam para o exterior.
Sexta estação e o número de casos começa a aumentar, as notícias espalham-se e aquele maldito vírus chinês, avança pelo mundo. Coisa mais chata. Não temos tempo para isso! Maldita China que tanto mal faz à humanidade.
Sétima estação e as lideranças mundiais, inclusive a nacional passam a concentrarem-se no assunto. Quarentena, confinamento, isolamento social, covid-19 são palavras integrantes do léxico de várias línguas. Felizes as nações, cujos governantes tanto se preocupam com o bem-estar da humanidade.
Oitava estação e o número de mortes no mundo inteiro passa a aumentar. Propagam-se as medidas a serem tomadas para evitar o avanço da doença, mas nem sabemos ainda qual é a doença: uma gripezinha, uma insuficiência cardíaca. Não devemos nos preocupar com o amanhã, a cada dia cabem as suas preocupações.
 Nona estação e campanhas para o isolamento social são apresentadas, fechamento de escolas, cancelamento de eventos que provoquem aglomerações e a Itália, aquele país separado de nós por mares e oceanos passa a ser referência em todas as conversas, estatísticas de curados e mortos, nossas refeições diárias. Cada um na sua é a máxima mais uma vez.
Décima estação e a segunda queda, Estados Unidos como novo epicentro da doença, discursos contraditórios em meio a uma pandemia mundial, talvez galáctia, todo o sistema de vida é alterado e o cheiro predominante é o da morte. América para os americanos do norte, voltem para suas casas.
Na décima primeira estação pesquisas, uma busca incessante, incansável por um antídoto para a doença. Ao mesmo tempo unidades hospitalares preparadas às pressas para atender a prováveis futuros contaminados pelo novo vírus. Respiradores artificiais, UTIs, máscaras, luvas são equipamentos de uma Terra devastada. Voltemos à ciência, tantas vezes desprezada.
Ai, cansaço, tristeza, melancolia, mas é preciso continuar e na décima segunda estação outros fatores começam a ser analisados em meio a pandemia. Como as pessoas vão se alimentar, se o mercado parar de produzir? O sentimento de impotência é escancarado à espécie humana. Ficar em casa para não propagar o vírus ou continuar as atividades diárias? A economia não pode parar, produzir é preciso, viver não é preciso.
Décima terceira estação e as fofocas a respeito da doença se misturam aos fatos e em meio às cidades fantasmas, algumas pessoas retomam suas rotinas, grupos de risco são delimitados, pois é necessário continuar. Alguns aceitam a  pífia e ordinária ideia de que alguns devem morrer para o bem de todos.Alguns vão ter que morrer mesmo e daí?
A ideia de desistir por não saber contra o que lutar, a ficção do Bird Box, transformada em vida real. Décima quarta estação e o caminho não se torna mais leve ou mais finito. Em que estado nos encontramos?Terceira queda. Eu não quero mais nenhuma chance, quem é que vai pagar por isso?
Essa deveria ser a última estação, mas por enquanto diagnósticos e prognósticos são inconclusivos. Já supusemos ser um pesadelo, do qual vamos acordar a qualquer momento devido a dificuldade de vivermos nessa nova realidade,
Continuamos mortos na esperança da ressurreição. Nessa décima quinta estação, aguardar é a palavra que náusea nossa mente, mas não há nada para fazer a não ser esperar.
Caídos e, ainda fracassados perante a situação, cremos na ressurreição da humanidade para os próximos dias. Sentimos em nós, todo o peso do mundo.
 
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