16/04/2020 às 10h15min - Atualizada em 16/04/2020 às 10h15min

​Tudo parado?

Nunca estivemos tão órfãos, desamparados, numa sociedade que não nos ensinou a conviver, olhar o outro, sentir-se parte de um todo. Por isso, eu não preciso preocupar-me porque criaram um grupo de risco e se eu não corro risco de morrer com a doença o problema não é meu. Metaforicamente seria como desviar do tiro e que o outro faça o mesmo.

Inquieta que sou, quem me conhece imagina como estou. Por incrível que pareça, dentro de casa, todos esses dias. Incrivelmente, estar dentro de casa é o que menos tem me incomodado perante a tudo o que está acontecendo lá fora. Estamos em plena guerra mundial.
Muitas pessoas não perceberam isso, outras estão fingindo não perceber e alguns inescrupulosos já se deram conta disso há muito tempo e incitam outros a crerem que nada diferente está acontecendo. Tudo normal.
Normal que vírus, ocasionalmente, apareçam; normal que algumas pessoas morram pelo contágio, pessoas morrem de várias coisas todos os dias. A morte é para quem está vivo, mesmo. Também é normal que usem desgraças para promoções individuais e políticas.
Num sistema movido pelo capital, custos econômicos se sobrepõem aos custos humanos. Normal. O que são alguns milhões de vidas, sacrificar parte é mais viável que perder o todo.
Natural um sistema de saúde despreparado para pandemias, também é parte de nosso cotidiano. Notícias falsas, brigas ideológicas, favorecimento e enriquecimento, se não ilícitos, imorais, e mais natural, ainda, descobrir um culpado e nos eximirmos de toda responsabilidade.
Nunca estivemos tão órfãos, desamparados, numa sociedade que não nos ensinou a conviver, olhar o outro, sentir-se parte de um todo. Por isso, eu não preciso preocupar-me porque criaram um grupo de risco e se eu não corro risco de morrer com a doença o problema não é meu. Metaforicamente seria como desviar do tiro e que o outro faça o mesmo.
Se eu preciso ir à rua resolver minhas coisas, tudo bem, se eu preciso respirar e para isso dar umas voltinhas pela rua, que mal tem. Sentar num barzinho e tomar uma cerveja é importante para minha sanidade mental, sentar na calçada e bater um papo com meus vizinhos e conhecidos, até desconhecidos, é parte da minha rotina.
O que não podemos é deixar de viver a nossa rotina, mesmo que seja para o bem coletivo. Quão desumanos somos por trás de um título de parte da humanidade. Todos os acontecimentos atuais estão demonstrando quanto involuímos  estamos nos conceitos humanitários, morais e éticos. Somos o que sobrou da humanidade.
Os grandes cientistas de todos os tempos devem ressentirem-se de terem lutado tanto por tantas  descobertas que, a princípio, buscavam melhores condições para a vida humana e o resultado ter sido esse: não podemos ficar dentro de nossas casas, objetivando evitar um caos maior que o que já estamos vivendo.
Tudo parado? Não. Algumas pessoas isoladas em suas residências, vários perdidos pelas ruas e abrigos, viadutos, calçadas e praças e muitos, muitos vivendo como se não fosse possível abdicarem-se do mínimo.
Nesse contexto, heróis invisíveis ganham visibilidade ao continuarem prestando à sociedade serviços essenciais. Talvez o epicentro seja esse: aceitar que o outro precisa se expor para garantir o mínimo para a vida humana e eu poder ser, no momento, apenas um atomozinho. Também preciso ser estrela, mesmo que inflando as  estatísticas  dos que se acham imortais ou não aceitam regras da coletividade.
Aceitar nosso lugar no mundo, submeter-se a ocupar as funções que nos cabem em cada momento, fazer pelo outro, mesmo que não seja por mim.Reflexões que colocam nossas mentes em turbilhão, ainda que, aparentemente tudo precisasse estar parado.
Quando seguirmos o caminho, seja ele qual for não seremos os mesmos e muito menos veremos os outros, que deveriam ser companheiros de jornada, com o mesmo olhar. Sejam desconstruídos todos os preceitos e conceitos. Prisioneiro de um universo inteiro, eu sou.
 
Link
Relacionadas »
Comentários »
" data-width="400" data-hide-cover="false" data-show-facepile="true">