03/04/2019 às 14h20min - Atualizada em 03/04/2019 às 14h20min

Autoconhecimento, Autorrealização e o Cuidado de si

Somos responsáveis não apenas por nossa vida individual, mas por todos que nos cercam; quando a pessoa se autorrealiza e encontra sua identidade, seu ego se torna contínuo e estável, menos egocêntrico e desenvolve mais bondade humana. (Von Franz, 2011)

Eneide Caetano

 

“Cuida de ti, para ser capaz de enunciar de ti mesmo a verdade! Ocupar-se consigo não é, pois, uma simples preparação momentânea para a vida; é uma forma de vida” - Foucault
 
 
                          Gustave Moreau, Édipo e a Esfinge, 1864, Metropolitan Museum
 
 
        Para o ser humano conquistar sua máxima aspiração, é imprescindível que conheça o propósito de sua existência e se ocupe com ele, integrando-se ao poder criador dentro de sua própria alma e construindo identidade com o seu próprio Ser Divino, o que promove seu melhor desempenho na vida, agilidade para administrar situações difíceis, autocontrole, confiança, maior consciência de si e do mundo, paz, amor próprio e liberdade. Somente quando o ego está comprometido conscientemente com o processo de autoconhecimento é que o sentimento de liberdade é experimentado verdadeiramente.
          No conhecimento de si mesmo, o indivíduo se “autoconstrói”, criando intimidade consigo mesmo, percorrendo os labirintos da alma, ativo, dinâmico, forjador de sua própria vida, evoluindo para sua transformação.
       Em Psicologia Junguiana, se autoconhecer leva o indivíduo ao encontro de sua totalidade, o que significa: encontrar em sua estrutura psíquica as influências das vivências pessoais (inconsciente pessoal) de conteúdos traumáticos de intensidade afetiva, a saber, os complexos, assim como, o  inconsciente coletivo com toda sua influência das imagens primordiais herdadas das vivências da humanidade (arquétipos); o que não queremos ser, nossa instintividade reprimida (a sombra); aquilo que não somos, isto é, as máscaras sociais a nós condicionadas visando os vínculos sociais, o outro (Tu) nos contrapontos sexuais intrapsíquicos, o masculino (na mulher) e o feminino (no homem), bem como conhecer as formas da consciência se adaptar ao mundo de maneira introvertida ou extrovertida e a assimilação das funções (pensamento/sentimento, sensação/intuição), para integrá-los ao que se adequa melhor ao nosso ser.
          O arquétipo do herói se manifesta em cada atitude do indivíduo na ampliação da consciência. Trata-se, porém, de tarefa que demanda grande esforço daquele que se dispõe a esse encontro, uma vez que nesse processo, a retirada das “projeções”, de fantasias, ilusões, dependências, falsas seguranças que podem acarretar alienação e aprisionamento, induz à ampliação da consciência, a autopercepção diferenciada e discernimento objetivo do próximo.
        Jung nos ensina que, para a compreensão objetiva do que somos, de como foi nossa história pessoal, e dos padrões coletivos que nos condicionam é indispensável ir além da solução das antigas maneiras patológicas. O analista deve levar a pessoa “a uma renovação, a uma atitude mais sadia e mais apta para a vida. Muitas vezes isso implica uma modificação radical na maneira de encarar o mundo. O paciente deve ser capaz, não só de reconhecer a causa e a origem de sua neurose, mas também de enxergar a meta a ser atingida. [...] Nossa tarefa não é destruir, mas cercar de cuidados e alimentar o broto que quer crescer até tornar-se finalmente capaz de desempenhar o seu papel dentro da totalidade da alma. (Jung, 1928/1987).
            Os gregos antigos nos mostraram que a experimentação de si permite ao indivíduo se tornar mais forte e convicto de uma possibilidade de vida ética. O “conhece a ti mesmo” gravado no oráculo de Delfos é o modelo na busca pela verdade.
        Este sujeito transformado torna-se dono se si, capaz de moderar seus afetos e adquire um modo de vida completo. Surge então uma função terapêutica interior, curativa, de uma subjetividade criativa que pertence a si mesma.
        É preciso conhecer-se, para melhor cuidar de si próprio, na atenção diária, em atitudes contínuas de autocuidado, utilizando as forças capazes de promover potências, que levam à transformação individual, ao melhor relacionamento com o mundo e com os outros para que este saber seja direcionado à arte de melhor viver.
        O cuidar de si é construído na subjetividade, uma prática para toda a vida, um exercício de si, uma atividade disciplinada, uma forma de estar no mundo, de ter relações com os outros, de encarar as coisas refletindo em atenção, visão e preocupação com o que se pensa e se sente. Exercitar-se neste campo significa essencialmente experimentar-se!
        Somos responsáveis não apenas por nossa vida individual, mas por todos que nos cercam; quando a pessoa se autorrealiza e encontra sua identidade, seu ego se torna contínuo e estável, menos egocêntrico e desenvolve mais bondade humana. (Von Franz, 2011)
       Enfim, aprimorando a análise de seus atos, da sua maneira de agir, dos erros cometidos e das possibilidades de realizar uma autocorreção na autocrítica positiva, o ser humano torna-se útil a si e aos outros, propagando harmonia em seu meio. Descobrir-nos conscientemente, é estabelecer um relacionamento contínuo com nosso centro maior, que Jung chamou de Si-mesmo, é relacionar com nosso mistério único, relacionando com a individuação (tornar-se um ser completo), com o que estamos destinados a ser em essência!
 
Eneide Caetano
 
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
30 anos de experiência profissional

 
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