23/04/2020 às 08h51min - Atualizada em 23/04/2020 às 08h51min

Pandemonia

Era para ter sido previsto. A tecnologia evoluiu tanto! Como ainda podem aparecer vírus tão ferozes sem uma vacina eficiente que os combata? Profissionais de saúde na linha de frente, nas trincheiras da guerra; sem armas suficientes, alguns sucumbem. Ter que escolher entre qual paciente morrer deve ser mais difícil que enfrentar a própria morte.


Dias e clima de guerra. Ruas vazias, rostos mascarados, arma invisível, campos de futebol transformados em hospitais, até o clima modificou, dias nublados, noites chuvosas. Dizem que, após muito tempo, a camada de ozônio está se recompondo, conseguem avistar o Himalaia, mas não vemos canhões nas ruas, apesar da situação de calamidade pública.

Clima de guerra, toque de recolher, tempo mínimo de funeral para os mortos, em alguns lugares já com dificuldades para sepultamentos decentes, sendo corpos queimados, leiam bem, não cremados, mas queimados.

Difícil acreditar no invisível, a realidade se sobrepõe a qualquer ficção. Quanta coisa foi imaginada para a virada do milênio, mas dificilmente alguém acertou no prognóstico. Beijos, abraços, aperto de mão, considerados inconvenientes; isolar-se, regra principal para manutenção da vida. Estranho castigo para uma época na qual as pessoas já se encontram tão centradas em si mesmas.

Era para ter sido previsto. A tecnologia evoluiu tanto! Como ainda podem aparecer vírus tão ferozes sem uma vacina eficiente que os combata? Profissionais de saúde na linha de frente, nas trincheiras da guerra; sem armas suficientes, alguns sucumbem. Ter que escolher entre qual paciente morrer deve ser mais difícil que enfrentar a própria morte.

Polícias tendo que continuar explicando que, mesmo sendo necessária a repressão, é sempre pela defesa da vida. Todos os campos minados, nem um lugar é seguro,se estiver com aglomeração de pessoas,  desde aquela cidadezinha qualquer, de Drummond, até as grandes metrópoles. Paris, saudades docê, sô!

O ministro e a milícia, na mesma luta, dessa vez, oficialmente. Sem distinção de credo, raça, nível social, o inferno é de todos. Óbvio que alguns infernos são  em mármore e outros em papelão,  alguns desfrutando de caviar, outros sem nem mesmo um pedaço duro de pão, mas a aflição pelo medo da contaminação é de todos.

O cenário é mesmo de guerra, definitivamente, uma guerra mundial, apesar de algumas pessoas preferirem fingir imunidade, somos todos alvos. Eu não sei precisar o lugar do outro, na perspectiva do sentimento, mas fico imaginando o que sentiram as pessoas de Hiroshima e Nagasaki, segundos antes da explosão da bomba, assim como dos demais indivíduos que vivenciaram as grandes guerras.

Penso também nos refugiados que tiveram que sair de seus países para tentarem uma vida nova. Seria a mesma impotência perante o imponderável? Catequizaram a muitos de nós, impondo medo de irmos para o inferno, faltou-me a lição de como viver no inferno.

O ano de 2020 será descrito em todos os anais da História como o ano no qual o inferno emergiu das profundezas e pairou na Terra. A fragilidade humana foi mostrada e mesmo assim a prepotência, a arrogância, o egoísmo se sobrepõem. 

Como já disseram nas músicas, na filosofia, sociologia, etc, ninguém é totalmente bom ou mau, puro ou demônio, mas essa pandemonia demonstra-nos que o lado anjo, o lado bom de cada um precisa aflorar, não podemos continuar tão condescendentes com a maldade;  se não for como preparação para o fim, que seja por um novo recomeço.

Uma colisão com um meteoro, uma grande bomba atômica, exterminando tudo, talvez fosse mais fácil, mas a necessidade, inevitável, da passagem pelo sofrimento quer nos dizer alguma coisa. Sejamos mais sensíveis aos sinais.
 
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