29/04/2020 às 09h52min - Atualizada em 29/04/2020 às 09h52min

Retornar é o caminho

As pessoas mudam, as idéias se modificam e o que parecia ser ideal em determinado momento, no futuro pode se tornar desgastante, ofensivo, antagônico, causando, de fato, um conflito de interesses e, o mais inteligente nesse momento é desfazer a relação e separar-se, retornando.

Nada é tão ruim que não possa piorar. Ouvi essa frase várias vezes e ainda ouço. Fatos passados, atuais e provavelmente futuros corroborarão para mostrar a veracidade da mesma, por isso, seguir em frente, nem sempre é o caminho, às vezes é imprescindível retornar.

Também é notório que não há nenhum problema quando se reformula uma ideia ou posição, com o aparecimento de novas evidências, como cantava Raul, a metamorfose é o cerne da existência, podendo-nos ser amanhã o oposto do que fomos ou somos.

No entanto, o ser humano tem dificuldade de aceitar que o outro pode mudar, se reposicionar, aceitar e desistir, entrar e sair. Quanto mais forte e importante a situação, mais antagônico será o distanciamento, mais impactante o desligamento e retorno.

Se essas posições resultaram ações que envolviam outras pessoas, mais fortes serão os julgamentos citando lealdade ou deslealdade, cumplicidade e traição, sendo a exposição pelo retorno, implacável.

Essa é, entretanto, uma realidade de muitas relações humanas; as pessoas mudam, as idéias se modificam e o que parecia ser ideal em determinado momento, no futuro pode se tornar desgastante, ofensivo, antagônico, causando, de fato, um conflito de interesses e, o mais inteligente nesse momento é desfazer a relação e separar-se, retornando.

Mas verdade é que nunca retornamos da mesma forma que fomos, estamos e somos. Constantemente, modificados pelas situações e, movidos pelas emoções que são parte de nós, somos ferinos nesse movimento de retorno destilando todo nosso rancor, nossa mágoa, contra o outro, até então aliado.

Poucos relacionamentos são finalizados pacificamente, com a anuência de ambas as partes, sem traumas graves; quanto mais forte a paixão do encontro, maior o ódio na separação; assim nas relações amorosas, econômicas e políticas.

Essa repulsa pelo outro é um reflexo do que sentimos pelo próprio eu. Eu acreditar, eu apostar, eu seguir, eu visualizar a possibilidade de um caminho que não me conduziu até meus objetivos.

O uso/abuso de ambos faz com que tudo que envolve a relação se torne doloroso. O primeiro encontro se torna humilhante, as mensagens trocadas, os segredos da intimidade da relação transformam-se em provas de crime. Até tu, Brutus! Eu abri meu coração para você! Você era meu herói! Arrisquei e depois desisti da minha carreira por você, você era meu mito.

Eu não devia ter confiado em você. As pessoas me avisaram, mas você queria a posição que eu poderia te dar, você já traiu outros e sempre que suas vontades não são satisfeitas, você descarta, sem considerar tudo o que foi feito por você.

Nossos pensamentos são muitos diferentes, melhor você seguir a sua vida e eu, a minha, não adianta conversar porque não estamos chegando a lugar nenhum. Voe. Faça tudo diferente do que combinamos em nossas conversas; blá,blá, blá.

Esses diálogos ocorrem sempre que uma relação é rompida e o encontro foi movido pela paixão, o uso abusivo faz com que o respeito, que nunca existiu, revele sua falta quando a intimidade de ambos é exposta em redes sociais, canais nacionais. O eu e você se torna uma novela de todos.

Por mais que se tente avaliar quem perdeu mais, numa situação de exposição todos perdem; a confiança no ser humano diminui, e a certeza de estarem as relações centradas em interesses e não sentimentos, prevalece.

Começo a acreditar que se torna necessário, no início de cada relação estabelecer o que restará a cada um numa situação de divórcio, o que nos mantém unidos, o que poderá nos separar e separando o que cada um levará.

É preciso aceitar que os dragões possam ser apenas moinhos de vento, que os nossos inimigos cheguem ao poder, e nossos heróis transformem-se em vilões ou morram de overdose; tudo depende do ponto de vista e da ótica que se pretenda ver.

Entre humanos, somos todos falíveis, sem existir santidade completa desprovida de pecado, nem satanismo sem uma pitada de sofisticação. Tudo muda o tempo todo e a inteligência reside em contornar e retornar, sempre que necessário, ainda que sujeitos a todo tipo de julgamento.

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