06/05/2020 às 08h55min - Atualizada em 06/05/2020 às 08h55min

O sonho é o caminho

Como atravessar o deserto sem morrer de fome? Viria o maná do céu? A sombra da morte continuava a ceifar inúmeras vidas, mas a rapidez da necessidade em viver fazia necessário o sacrifício de muitos.

O ano era vinte e vinte e muitas coisas estranhas começaram a acontecer no planeta Terra. Na verdade não apenas nesse planeta, mas os terráqueos não suspeitavam disso.

Os pais tiveram que tomar conta e educar seus filhos porque as creches e escolas foram fechadas. As famílias precisaram cuidar de seus idosos, pois não podiam sair às ruas para compras básicas. Refeições diárias foram restabelecidas, uma vez que restaurantes deixaram de funcionar. As igrejas tornaram-se os lares e cada um teve todo o tempo do mundo para começar a viver.

Teorias sinistras surgiam e não eram confirmadas, dia após dia; esperava-se ansiosamente por uma solução para o terrível problema.

Enquanto isso o planeta Terra voltava a respirar, as nascentes dos rios jorravam água, o ar livrava-se da poluição, a camada de ozônio ganhava espessura; mas os humanos sentiam angústia e desespero.

Profetas apareceram, mas existia uma grande dificuldade em avaliar os verdadeiros dos falsos. Enquanto se pedia para a população ficar em suas casas para evitarem a contaminação e transmissão do vírus, outros diziam ser tudo uma manipulação da realidade com a tentativa de dominação e escravização.

A história voltava há séculos atrás... Na preparação que antecedeu ao dilúvio, Noé construiu a arca para que as pessoas se protegessem, foi mais fácil levar um casal de cada espécie de animais e apenas esses com a família de Noé sobreviveram ao dilúvio. Durante as pragas do Egito, também Moises pediu ao povo que se resguardasse em suas casas, marcasse suas portas para que a praga não os atingisse com a morte de seus primogênitos. Muitos se salvaram, mas vários não obedeceram.

E assim, como os hebreus tiveram que fugir do Egito em direção à Terra Prometida, as pessoas, dessa vez, precisavam atravessar um deserto ou o Mar Vermelho, mas para entrarem em suas casas e olharem para si mesmos.

Como atravessar o deserto sem morrer de fome? Viria o maná do céu? A sombra da morte continuava a ceifar inúmeras vidas, mas a rapidez da necessidade em viver fazia necessário o sacrifício de muitos.

Corpos empilhados, valas abertas, caixões vazios? Vidas vazias? Os dias seguiam todos iguais e o calendário continuava a seguir acompanhando a ampulheta do tempo.

Vinte, vinte, fazia o tique-taque do relógio, manhãs, tardes e noites, com aqueles ponteiros irritantes e barulhentos. Os jornais desfilavam notícias e em nada esperançosas:economia falida, política esfacelada; um ringue a céu aberto com lutas diárias, não pela vida, mas pelo poder.

Vinte, vinte, as aulas eram dadas e não se aprendia nada. As pessoas continuavam céticas e mesmo que Moises abrisse o mar vermelho com sua vara, muitos morreriam afogados por não crerem ser possível atravessar a pé enxuto. Mais importante que a verdade é ter razão, até porque a verdade é um grande enigma.

Vinte, vinte, não apenas um número representando um ano no calendário ocidental cristão, um peso de anos de histórias mal escritas e infielmente contadas que exigiu um acerto de contas.

Observa tudo o unicórnio da janela, enquanto os fantasmas assistiam às cenas, aparvalhados.

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