13/05/2020 às 08h59min - Atualizada em 13/05/2020 às 08h59min

O caminho é o céu

Nesse tempo de nebulosidade, viver se torna cada vez mais raro, assim, é imprescindível aproveitar todos os momentos. Apesar da singularidade dessa crônica a intenção é chamar nossa atenção para a importância que o outro tem em nossas vidas, no impacto da ausência do outro em nossas histórias

 

Drummond escreveu um poema chamado Confidências do Itabirano, no qual atribuía à cidade várias das características de sua personalidade, e no final demonstrava uma grande nostalgia por ter ido embora para outra cidade.

Sempre me considerei uma pessoa corajosa, mas meu coração nunca suportou a ideia de deixar minha cidadezinha, que não é uma cidadezinha qualquer, é a minha cidade, menos que um pontinho no Google, mas tudo o que sonhei para ser feliz e, principalmente, pela rua que vivi todos os dias da minha vida. Podem trocar o nome, mas sempre a Rua do Caparaó.

Só não raciocinei que não partir, não significaria que as pessoas não partiriam. A nostalgia não se encontra na partida espacial, mas nas partidas temporais das quais ninguém pode escapar.

Na infância éramos conhecidos pelas valas que dividiam a rua ao meio, enormes buracos que faziam o divertimento nos períodos de chuva pelos grandes tombos que as pessoas tomavam ao escorregarem. Eu mesma caía várias vezes, enquanto uns davam risadas discretas nas janelas, e sempre aparecia um samaritano para ajudar o outro a levantar.

O tempo foi passando e ilustres figuras se formaram nessa rua, algumas mais folclóricas que outras e eu sempre disse que bastariam dois enormes portões e uma grande placa para oficializar o manicômio do município. Como diz o ditado do médico e do louco, aqui, quem não é médico é louco, mas uns sempre cuidando dos outros, se necessário entrando na loucura, dando folhas de chá.

Como o morro sempre foi muito íngreme, a idéia de subir para o céu sempre permeou todas as subidas, mas a perda física de nossos vizinhos-amigos sempre causa uma dor que apenas quem vive numa rua como a do Caparaó pode mensurar.

Essa crônica é muito particular e vou usar disso para citar alguns nomes que nos deixaram órfãos: Dona Tita, Dona Minega, Dona Auta, Lia, Afonso, avó Siota, Senhor Raimundo, avó Fiinha, Senhor Eugênio, minha mãe, Donas Marias, senhor Ataíde, Fiinho, Dona Ritinha, Das Graças, Antônio Afonso, Maria Ladainha, tia Raimunda, tia Fatinha, Sebastião (com o sobrenome de doido), senhor Caetano, Nelinho, senhor Jair, avô João Velho, Dona Tina, senhor Emídio, Dona Mariquinha, Dona Alzira, Senhor Afonso, Ermínio, Robson barbeiro, entre outros.Nesse momento, cabe ao leitor substituir esses nomes pelos seus.

Eu não sei se nós, como filhos, saberemos dar continuidade a herança de vocês, ao sonho de vocês, a ideia de família que vocês sempre carregaram e nos transmitiram. Essa rua é muito mais que um condomínio de luxo por tudo que vocês fizeram de suas vidas e nos deram de exemplo.

Cada vez que temos que encaminhar o corpo de cada um de vocês para o sepultamento, ficamos mais entristecidos, apagados e murchos. A orfandade é um estado de vida que ultrapassa qualquer sentimento e quando os anos nos atingem a clareza e as dores das perdas se tornam cumulativas, não é só mais uma perda é a soma de todas as perdas.

Nesse tempo de nebulosidade, viver se torna cada vez mais raro, assim, é imprescindível aproveitar todos os momentos. Apesar da singularidade dessa crônica a intenção é chamar nossa atenção para a importância que o outro tem em nossas vidas, no impacto da ausência do outro em nossas histórias. Você conhece os seus vizinhos? São seus amigos ou apenas conhecidos?

De tudo que sonhei e realizei na vida, meus maiores ganhos são as pessoas com as quais tive a honra de conviver, aprendi a ser e a não ser e a comemorar e sofrer com todas elas. Minha rua é minha vida e mesmo não a tendo transformado apenas numa foto na parede, a partida de cada uma das pessoas que amamos muito dói. Drummond, nem vou usar a desculpa do conhaque para dizer que tem épocas dessa vida que deixam a gente comovido, por demais.

Para todos nós, que o caminho seja sempre o céu e lá eu quero morar na Rua do Caparaó, novamente, com todos vocês. Uma Rua do Caparaó para todos nós, mesmo com as dores da despedida. Valeu a pena? Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.

Link
Relacionadas »
Comentários »
" data-width="400" data-hide-cover="false" data-show-facepile="true">