05/06/2020 às 17h36min - Atualizada em 05/06/2020 às 17h36min

​A melanina não é o caminho, o ser humano é o caminho.

Muitas vezes ignoramos a questão do racismo, ou fingimos que não somos racistas, mas quando o negro americano pronunciou a frase, por uma questão física, biológica não imaginava o quanto poderia ser subentendido em sua afirmação.


Essa semana pensei em não escrever, na verdade desisti de escrever. Tantos fatos horrendos ocorrendo de uma vez que considerei desnecessário fazer uma crônica, seja sobre qual assunto fosse;  afinal uma crônica é só uma crônica e está difícil concorrer com tantas notícias, mas escrever é vício e o nosso leitor será sempre nosso maior incentivo, assim na prorrogação , ela vai.

Todos nós temos nos sentido meio perdidos, como se um buraco negro nos tivesse sugado e nos transportado para outra dimensão, mas se não bastasse tudo isso, em meio a essa pandemia, temos vivenciado situações políticas, econômicas e sociais dignas de um sanatório. Insanidade pura.

Com terreno tão farto, resolvi comentar hoje a questão racial que foi colocada em voga devido à morte de um negro, por um policial nos Estados Unidos, o que gerou protestos em boa parte do mundo, apesar de no Brasil uma criança ter morrido em situação semelhante e ser apenas mais uma notícia.

A frase virou slogan de protesto:” Eu não consigo respirar!”. Muitas vezes ignoramos a questão do racismo, ou fingimos que não somos racistas, mas quando o negro americano pronunciou a frase, por uma questão física, biológica não imaginava o quanto poderia ser subentendido em sua afirmação.

O povo negro, escravizado foi retirado de seu continente como um animal irracional, desconsiderando-se a sua situação de pessoa, de humano. Não teve direito à família, levado para outros continentes em porões de navios. Isso não é ficção, foi real e  a abolição da escravatura proposta não libertou nenhum negro.

Continuamos vistos, por muitos, como sub-raça, inferiores, indignos de cargos e posições. Sem nenhum pieguismo, é difícil respirar sendo negro. Por mais que se viva desconsiderando os apelidos de neguinho, neguinha; fingindo não perceber os olhares de surpresa quando você se apresenta e não corresponde ao perfil imaginado, principalmente quando acrescentou um sobrenome estrangeiro a sua assinatura, por mais que não te baste ser bom para uma função ou cargo, tem que ser o melhor para tê-la, é muito difícil respirar.

E hoje ao discutir o assunto do negro, a partir da literatura brasileira, fui tocada por alunos que demonstraram uma sensibilidade, um respeito pela história dos negros que me comoveram. Não questões de mimimi ou piedade, mas consideração, afeto, respeito, compaixão, e uma afirmação de uma aluna dizendo que percebeu que, infelizmente, o simples fato de nascer branco é um privilégio, fato que ela considerava triste, mesmo sendo branca mexeu muito comigo. 

O tom da voz no áudio, a concentração ao dizer cada palavra foram como um respirador para uma negra que tem sentido muita dificuldade em respirar, e aqui a sensação não tem ligação com o uso de máscaras, mas o peso de um compressor que vive sempre na garganta de quem é negro e ainda hoje, precisa afirmar diariamente sua integridade, sua idoneidade, seu caráter para não ser rotulado de bandido.

Apesar da garganta embargada, a discussão acendeu, mesmo que minimamente ,uma luz que estava apagada, reacendeu a esperança na humanidade.
Todas as vidas importam e quando se adjetiva dizendo que vidas negras importam não se pretende sobrepor o negro às demais raças, mas gritar que negro também é ser humano, que sente, sonha. Layla conseguiu relatar tão sensivelmente que me fez sentir que ainda vale à pena acreditar que muitos adolescentes e jovens ainda farão diferença positiva no futuro da humanidade.

Por eles é que resolvi não desistir e nessa crônica reafirmar que a luta pela vida com dignidade é de todos e a educação o caminho. Layla, você foi hoje minha estrelinha e meu segundo ano dois será sempre uma parte da minha história, por me fazerem identificar com meu povo que é forte, é de luta. Por vocês eu continuo acreditando.

A família Sousa da África saúda você, de qualquer parte do mundo. Nascer branco não pode ser um privilégio. A cor da nossa pele nunca pode ser a medida de nosso caráter. Axé, muito axé, força, luz e muitas Laylas para todos vocês que assim, como eu, estão com dificuldades para respirar.
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