19/06/2020 às 17h45min - Atualizada em 19/06/2020 às 17h45min

Existe amor para recomeçar

Existe amor para recomeçar

Sempre pensamos que a virada do século seria uma época de grandes mudanças e transformações e o atraso cósmico fez com que as mudanças chegassem vinte anos depois e cada dia vivemos a instabilidade da fluidez dos sólidos da contemporaneidade. A coisa é tão séria que a instituição escolar tão arraigada no século dezenove teve que dar um salto de mais de duzentos anos, em menos de trinta dias e se adaptar ao ensino online, nesses tempos de pandemia.
Quem não sabia usar nem quadro de pincel teve que aprender a usar chats, what sapp, blogs e outras ferramentas para continuar na profissão que é tão romantizada em discursos, mas tão dura e difícil na prática diária.
A crônica dessa semana é um tributo aos profissionais da educação, aos alunos e às famílias que têm conseguido, numa superação diária, fazer dar certo, uma coisa tão incerta, como está sendo o ensino remoto.
Legislações e demais burocracias à parte, é importante falar daquele professor que, com um celular que não é última geração, está  dando aulas através de áudios, mensagens, vídeos, (aprenderam a fazer vídeos para continuarem o processo de interação). Daquela família que está fazendo da sala, do terraço, uma sala de aula; do pai, da mãe que estão se desdobrando para incentivarem seus filhos a estudarem nos espaços de suas casas.
Precisamos lembrar também daquele menino e daquela menina que não têm acesso a tecnologia e receberam um material impresso gelado, frio, com a triste missão de desvendar, sozinho,  aqueles mistérios desenhados nas páginas.Situações mais  críticas fazem com quem alguns nem tenham uma mesa e uma cadeira para assentarem-se para fazer a atividade.
Não tem recreio, não tem merenda, não tem a farra da sala de aula, as zoeiras e brincadeiras com os colegas, matar a aula no pátio ou no banheiro da escola. Não tem cafezinho na sala dos professores, o desabafo e as brincadeiras.
Apesar de tudo, das incertezas, dos medos, da  pandemia , algumas aulas acontecem  com a energia que emana de todo processo de conhecimento, até memes e algumas brincadeiras são capazes de aparecer.  Quem não pode participar da aula no momento virtual real, faz as atividades depois, envia no privado.
Não se trata apenas de aprender linguagens, humanas ou ciências da natureza e matemática. É aprender que reaprender é a essência da vida, sendo as incertezas, nossa única certeza. A aula de Educação Física ainda não é na quadra, mas o assunto continua sendo a saúde mental e do corpo, o blog é o mural da escola e nunca cada aluno teve seu tempo tão respeitado.
É o ideal, está bom, não? Nada está bom, a pandemia não está boa, o distanciamento social é triste e a saudade que cada professor ou outro profissional da educação sente da escola, dos alunos, da interação chega  a doer.
Saber que aquele aluno que mais precisa da escola como meio de socialização e proteção está sozinho, sabe-se lá em quais condições é assustador. Não ter uma previsão de retorno, angustia; mas a certeza de que cada um está tentando dar, aos alunos que temos acesso,  meios de ocuparem seu tempo de forma saudável e com aquisição de conhecimentos, me faz sentir muito orgulho de ser parte de uma categoria profissional que sempre se adapta e se adequa, fazendo o impossível para que as coisas deem certo.
Existe amor para recomeçar, muito amor e quando pudermos estar juntos  novamente, seja quando for, teremos muito orgulho de dizer que não deixamos a educação parar, mas a nossa essência é a interação, o contato, estar junto é mais que informações, o nosso conhecimento principal é conviver cercado de amor. PET (Pode esperar turma), em breve, muito em breve, vamos recomeçar.
 
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