03/07/2020 às 11h40min - Atualizada em 03/07/2020 às 11h40min

Habitus do caminho.

Habitus do caminho.

Todo dia, sempre igual. Ontem fui fazer uma coisa rotineira: tomar banho ;e percebi que sempre entro no box pela mesma posição, que nem é a mais óbvia, pois giro para a direita e sou canhota. Após o giro para direita, viro 360 graus e começo a limpeza corpórea. Como a minha parte médica estava ocupada com a pandemia, minha totalidade louca estava em alta e aquele ato comuníssimo de tomar banho, transformou-se em um enigma.

Mesmo com o chuveiro ligado, retornei a posição inicial e me propus a  fazer diferente, mudei a posição de entrar, girei para o lado contrário e voltei à ação de me lavar.Cruzes! Que incômodo, desconforto! E ,obrigatoriamente, desisti da filosofia e voltei à posição para a qual estava acostumada para finalizar o banho.

Como o hábito nos consome, fazer sempre igual, do mesmo jeito, da mesma forma; desde ações simples, como um banho, até posições complexas e importantes como a política, a economia. Quando indagamos e indagados a única resposta é que sempre foi assim. Tem um jeito diferente, um processo alternativo, uma nova forma? Não importo, eu sempre faço assim. Assim como? Assim, por quê?

Não é uma crítica ao conservadorismo. Existem conservadores completamente lúcidos e racionalistas, é sobre a falta de análise e razões para nossas escolhas, decisões. Essa constatação de repetir para não analisar, fazer sempre igual para não pensar nos permeia e impregna a vida tornando as cores, desbotadas; a dor ,suportável; o desumano, natural.
Talvez em algumas situações a repetição do processo nos dá maior segurança em relação ao resultado. Se seguimos a receita, teremos mais garantia, mas a vida não é um bolo ou uma lasanha; a vida é um caleidoscópio com matizes e nuances que se alteram a cada milésimo de segundo.

Repetições automáticas dos atos não estagnam a vida, ao contrário; a dinamicidade nos atropela cada vez que repetimos e as situações são novas. Talvez, só talvez, possa ser essa uma das razões pelas quais estamos sofrendo tanto com essa pandemia do corona vírus.

Teimamos em fazer igual, numa situação tão diferente. Por que usar máscaras? Para que ficar em casa, álcool em gel? Antigamente não tinha nada disso e as pessoas não ficavam doentes. Ou então, não seria mais simples deixar todos se contaminarem? A morte é o fim de todos. Alguns terão que morrer. Ou melhor, todos teremos que morrer.

É mais fácil aceitar a morte que mudar os hábitos, mesmo que esses nos consumam, nos reduzam a robôs sofredores, aprisionados pela força do hábito, ações automáticas de seres sensíveis que não conseguem fugir da armadilha do calabouço do hábito.

E como a gente é educado para isso desde bebês! Horários, rotinas, adestramentos como parte do processo que deram o nome de socialização. Rotina, rotina, rotina. Sem perceber, somos conduzidos por outrem, que conscientemente  nos governa numa prisão mental do hábito, que uma vez incutido nos obriga a uma rotina, sem que percebamos o processo de dominação.

Eu não consigo mudar a posição do meu corpo no ato do banho, têm aqueles que  fabricam rituais ainda mais complexos, mas no fundo, todos e cada um de nós somos escravizados  por hábitos que demos o nome de gosto e preferências, mas no fundo são manifestações de dominação que afetaram nossas subjetividades.

Das coisas simples às mais complexas, seria necessário muita ousadia para mudar um hábito. Você já transgrediu a dominação e reconhece hábitos que não consegue explicar?

Em quais aspectos o hábito nos tolhe a liberdade, nos automatiza e tira a racionalidade que deveria ser inerente à espécie humana? Nunca mais vou tomar banho com a paz que sentia antes, pois como diz a filosofia do bar: a ignorância é mãe ou irmã gêmea da felicidade. Ignorante feliz ou um lúcido em conflito? Ser ou não ser? Hábitos ou não hábitos?
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