10/07/2020 às 08h54min - Atualizada em 10/07/2020 às 08h54min

De cócoras no caminho.

De cócoras no caminho.

Dias desses é que me lembraram que estamos no mês de julho, minha vida era perguntar e daí, mas o assunto era relevante e o momento não era propício para uma cena. Então, guardei o fato na memória e todos os dias ele me vem à lembrança, a necessidade de exorcizá-lo é grande e, já tem mais de um ano que esse canal, me auxilia a extravasar, sejam sonhos ou dores. Todo escritor tem na publicação uma válvula de escape.

Mas o assunto de hoje é estarmos em julho de 2020, com a sensação de não termos saído de março, quase quatro meses que um tal de corona vírus deu stop no mundo, sem data prevista de retomada do transcorrer normal do tempo.Vai saber lá, também, o que é normal.

Estávamos acostumados a um ritmo, muitas vezes acelerado, de ocupar todos os instantes com inúmeras atividades, inclusive as crianças, todos os minutos ocupados, até que de repente... O grande botão do controle remoto dá um pause. Para tudo.

Ficar em casa, sem contatos, sem aglomerações, sem abraços, usar máscaras, álcool em gel e tantos outros cuidados para tentar se prevenir e resguardar a vida. Notícias e manchetes nem sempre confiáveis, sensacionalismo misturado a informação.

Ninguém teve tempo de se preparar, se organizar para uma realidade tão surreal. O que no início parecia férias, torna-se um pesadelo do qual não conseguimos acordar. Fala-se de um novo normal para algo que é irreal, invivível (vamos criar mais esse neologismo), junto a tantas emoções conflitantes, a angústia e depressão se camuflam.

Tenho estado bastante nostálgica, pensativa e a imagem de meu avô, de cócoras na velha varanda, observando tudo, analisando as situações, contemplativo, emergiu em minhas lembranças e, analogamente, sinto-me como ele, se não física, psicologicamente, e junto passei a pensar no folclórico Jeca Tatu, de Monteiro Lobato; tantas vezes confundido com um preguiçoso.

De cócoras no caminho, contemplativa, cada dia compreendendo menos a realidade, embreada em jogos, disfarces, artimanhas. O que aconteceu com a obra mais bela da criação? O que foi feito do ser humano? Por quais caminhos se esgueirou? Quais atalhos pegou? Está mesmo evoluindo ou em degradação?

A simplicidade, a humanidade, a singeleza, a sinceridade pararam em que parte da história? Atualmente vive-se imaginando o que o outro quis dizer, para quem foi aquela indireta do post do face? O que querem ganhar com essa atitude?

Parece que em tudo existem segundas intenções. É sempre um jogo no qual as peças são as vidas humanas; não importa matar ou correr o risco de morrer, desde que a adrenalina corra solta e haja um vencedor. Ao vencedor, as batatas.

Saudades do Jeca Tatu e do meu avô que representam o ser humano em sua essência, sem maquilagens, sem máscaras. Amar e amor eram gestos e ações e não declarações ao público. A palavra de um homem ou um aperto de mãos eram suficientes para selar e celebrar acordos.

De cócoras, porque pensar não permite o conforto total dos músculos, exige o trabalho incessante do cérebro que precisa estar num alerta constante perante todos os perigos que a atualidade oferece. Cuidado com o que se fala, com o que se pensa.

Tudo pode não passar de uma ilusão e o que pensamos ser realidade não passar de fake news, até esse texto, até você, até eu. Se for possível, permita-se, mesmo que ocasionalmente, ficar de cócoras, pensativo, contemplativo, honesto, simplesmente humano.
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