12/04/2019 às 14h19min - Atualizada em 12/04/2019 às 14h19min

Missão heroica no sacrifício de Jesus Cristo

Atravessar momentos difíceis é uma jornada heroica que exige maturidade, humildade e renúncia. Dentre tantos outros heróis, Jesus Cristo, foi capaz de vivenciar enormes sacríficos de muitas renúncias, abdicações dolorosas e conscientes, abrindo mão de conquistas materiais em prol de algo muito maior.

Afresco da Anastasis. Igreja de Chora - Istambul. - Descida de Jesus ao inferno
O mito do herói é símbolo de renovação e transformação, está presente na formação de toda cultura, bem como na estruturação da personalidade e em cada nova consciência que o indivíduo adquire de si e do mundo.

Jung considera o herói o símbolo mais nobre da libido (= tudo o que move o ser humano, de forma geral), idealização de um ser física e espiritualmente superior aos homens.  Ele representa o homem que nasce, cresce, luta, morre e torna a renascer em seus filhos, “um ser quase-humano que simboliza as ideias, formas e forças que moldam ou dominam a alma.” (JUNG, OC V,1986)

O arquétipo (padrão psíquico coletivo herdado, que rege a conduta humana) do herói faz parte da estrutura da psique, que surge sempre em momentos de grandes dificuldades e representa o impulso natural do ser humano em se aprimorar, crescer, individuar-se. Tornar-se o ser único que realmente é, ao mesmo tempo integrante de uma coletividade humana que dá consistência à sua unidade.

Enquanto arquétipo, o herói se manifesta na necessidade natural da criança de se libertar do mundo fantasioso e misterioso do inconsciente coletivo, superando o encanto das forças inconscientes e construindo sua personalidade desenvolvendo o ego. Da mesma forma, a agressividade do adolescente, está ligada a essa ruptura, ao impulso para a independência.

A busca adolescente de um estilo original de vida e a tentativa de estabelecer a própria identidade segundo valores próprios também estão ligadas à constelação do arquétipo do herói: figuras idealizadas de heróis são aquelas com quem o jovem pode espelhar-se – em oposição aos pais. Nessa etapa, a maturidade dos pais se mostra decisiva para que os filhos se desenvolvam além da família.                 
                 
Originariamente o herói é o guardião, o defensor, o que nasceu para servir. Na linguagem contemporânea ele tem o sentido de guerreiro, está ligado à luta e as outras funções como a adivinhação, a fundação de cidades além de introduzir invenções aos homens. (Brandão)

O sacrifício, vivenciado nas fases da vida abordam repetidamente os conflitos: abdicações, batalhas conta o mal, mortes, abandonos, perdas e desafios. O indivíduo, frustrado e ansioso, tende a entristecer-se e perceber-se mal equipado para lidar com a realidade, buscando fugas que impedem seu desenvolvimento saudável. Nestes momentos de conflito para vencer a infância e entrar na adolescência o jovem necessita agir no plano simbólico, isto é, perceber que o que deve morrer é a sua atitude infantil, como também o adulto, a pessoa na meia-idade e o idoso em suas transições. Em condições patológicas, o arquétipo do herói pode reativar episódios primários negativos, experiências de abandono e rejeição, consideradas de grande risco, que fazem surgir impotência, depressão e desamparo, onde surge o perigo real de suicídio.  

Atravessar momentos difíceis é uma jornada heroica que exige maturidade, humildade e renúncia. Dentre tantos outros heróis, Jesus Cristo, foi capaz de vivenciar enormes sacríficos de muitas renúncias, abdicações dolorosas e conscientes, abrindo mão de conquistas materiais em prol de algo muito maior.

Cristo passou pela Kenosis - esvaziamento da vontade própria e a aceitação do desejo divino.  Ele deixa suas "credenciais divinas" e torna-se um ser totalmente dependente do Espírito Santo para mostrar a humanidade que é realmente possível vencer. Desse modo, a kenõsis, ou seja, "A DOUTRINA DO ESVAZIAMENTO DE CRISTO" é a grande passagem que projeta a luz sobre a encarnação de Jesus Cristo, onde ele se desfez de sua divindade e esvaziou-se de sua deidade parcialmente, na verdade em seus atributos e poder. Deixou de ser Deus (forma divina) para ser homem (criatura) por amor de muitos, a humanidade. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Kenosis)

O tema da descida ao submundo é encontrado em muitas tradições religiosas antigas, assim como no cristianismo, onde há uma referência, no credo católico, que afirma que Jesus “desceu ao inferno”. Este aspecto arquetípico da morte e ressurreição está muito presente no cerne da psicoterapia atual. “Todo paciente deverá morrer, descer ao seu inferno pessoal, ir ao fundo do poço, como se diz, para se transformar.” (Boechat 2009)

As características deste processo são as intensas lutas da consciência contra forças inconscientes e barreiras do mundo externo, momentos em que há o predomínio arquetípico da figura do herói, potência do ser humano que empreende sua jornada e deve descer às cavernas escuras de sua alma.

O herói em nós corajosamente necessita atravessar limites, do conhecido para o desconhecido e ter confiança de que, quando chegar o momento, terá as soluções necessárias para enfrentar os obstáculos de sua jornada, contribuindo para a transformação de si mesmo e do reino, aprendendo a ser verdadeiro consigo mesmo e a viver em harmonia com os outros membros da comunidade.
 
Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
30 anos de experiência profissional
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