11/12/2020 às 16h41min - Atualizada em 11/12/2020 às 16h41min

Reflexões do caminho

Reflexões do caminho

Às vezes, raras vezes, escrever é um desafio, porque o sentimento está dentro da gente e as palavras não vêm. Isso gera uma reação quase física de uma sensação de indigestão; sabe quando você come muito e a digestão não é feita de forma devida? Vou usar uma palavra antiga, mas que expressa bem o que desejo dizer: empanzinamento, sentir - se empanzinado, ou seja, não é a falta, mas o excesso. O excesso de sentimentos que desorganizou a minha forma de pensamento, metalingüística pura.

Assim, ao pensar sobre o que escrever essa semana tornei-me imóvel pelas inúmeras sensações que esses tempos atuais têm provocado em todos nós. Escrever sobre a dor da perda de tantas famílias que, de forma desavisada se viram órfãs pela morte? Não, vamos ser mais alegres e otimistas. Talvez sobre os cactos que em meio a aparente aridez dos espinhos produzem belas flores? Banal demais para o momento. Da expectativa sobre a chegada da vacina para combater a pandemia? Técnico e político demais. Dezembro; então escrever sobre as tradicionais festas de fim de ano. Num ano tão atípico, é muito convencional.

A partir desses devaneios eu resolvi fazer um texto partilhando com vocês o que estamos esperando para os próximos tempos. Inicialmente, nós esperávamos que a pandemia fosse ser por um período breve e, com sorte, nem chegaria até nós. Aos poucos fomos percebendo que não conseguiríamos passar ilesos e o tempo seria estendido,

Atualmente o receio do dia seguinte, da próxima notícia de vítima fatal e da reinfecção são nossos temores, juntamente com uma trama política em torno das vacinas que serão disponibilizadas.

Difícil não continuar a temer os tempos vindouros. O que mais nos espera, quais poderão ser as próximas tragédias. Impossível planejar ações, eventos, vidas, em meio a tantas inconstâncias.

No princípio a frase profética: “O dia em que a Terra parou”, chegou a ser meme, mas o que presenciamos é um ritmo acelerado de catástrofes, perdas. O casamento tão amorosamente planejado não pode acontecer da forma como os amantes esperavam. O aniversário tão primorosamente comemorado todos os anos não poderá  acontecer; o abraço de conforto na hora do sofrimento ou da comemoração foi de longe e os sorrisos encorajadores estão escondidos sob as máscaras.

A Terra, definitivamente não parou, mudou de rotação, de translação e outros movimentos que a Geografia ainda vai precisar de tempo para estudar. A pandemia não está no fim, é o início de uma nova época, de novos procedimentos. Estávamos prontos para tantas coisas e, de repente, fomos confrontados com a grande verdade da existência: sei que nada sei. Tudo que parecia sólido evaporou no ar e um vírus contaminou cada um e todos nós.

Nada será como antes, se vai ser melhor ou pior, só os tempos irão dizer. Até as crônicas já não são como antes, mesmo os loucos, a louca, que se propõem a escrever. Espero que tenha a oportunidade de escrever um próximo texto, mas real, menos louco e que essas não sejam minhas últimas palavras.
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