18/12/2020 às 14h44min - Atualizada em 18/12/2020 às 14h44min

MÃOS NO CAMINHO

MÃOS NO CAMINHO

Ele disse que não morreria mais porque eu estava com ele e quando ele segurava minha mão, tinha certeza de que ia ficar bem. Quando ele soltou minha mão durante a madrugada, eu tive certeza de que ele estava partindo. Como é doloroso lembrar de uma coisa tão forte que você nunca mais conseguirá esquecer. Segurar na minha mão não foi suficiente, ele se foi.

Ele se foi, eles se foram e continuam indo. A sombra da morte continua rondando as ruas, as casas, as pessoas, numa visão como das pragas do Egito, aqueles espectros de fumaça foram substituídos por um vírus invisível.

Dificilmente alguém ainda esteja ileso à fatalidade do vírus, seja pela perda de um ente familiar, um amigo, um conhecido. Os números crescem a cada dia e o grupo de risco somos todos nós, uma vez que, mesmo os que já foram infectados, têm a possibilidade da reinfecção.

Além de passar pelos sintomas, o isolamento e a possibilidade de agravamentos que possam pedir uma internação e em último estágio, uma entubação, ainda restam os receios das seqüelas. Pouco se fala das seqüelas ainda, afinal, a corrida é pela vida, mas não se pode negar e, quem já teve a infecção sabe, que as seqüelas ficam.

Não pode ter velório, não pode abrir o caixão para uma última despedida, eu tive o privilégio de dar um último beijo na testa, mas caso raro, na maioria, a falta desse ritual tão vivo na história da humanidade parece provocar a sensação de que as mortes não estão acontecendo.

Desaparecendo. As pessoas estão, sutilmente, desaparecendo. Sem os hinos, sem o cortejo, sem o abraço de sentimentos aos familiares. A crescente dos números de mortes acontece justamente porque lavamos nossas mãos no caminho.

Insensibilidade, egoísmo ou qualquer outro nome que demos não serão suficientes para demonstrar o quanto estamos espalhando o vírus, promovendo a doença; netos que se contaminam na pressa de não parar a vida e levam o vírus para pais e avós; outras pessoas teimam em circular sem responsabilidade, aumentando o índice de transmissão da doença.

Pilatos lavou as mãos e permitiu que crucificassem Jesus Cristo. Estamos muitos no mesmo estágio, seguindo nosso curso, nosso rumo. Sem nos responsabilizarmos pelo comum, pelo outro, lavamos nossas mãos.

Lavamos as mãos perante a desigualdade social que mata tantas pessoas, inclusive de fome; lavamos as mãos frente ao preconceito de todas as formas que gera violência e mortes; nos recusamos a higienizar as mãos e mantermos o distanciamento para evitar a contaminação e transmissão do vírus.

Lavando as mãos a humanidade vem se destruindo aos poucos por não entender que o bem-estar e a existência de cada um relacionam-se diretamente com o bem de todos.

Segurar a minha mão não foi suficiente para mantê-lo vivo, mas deu a ele a serenidade necessária para uma morte tranqüila; assim devem ser as ações de nossa vida, mesmo que não sejam suficientes para sanar os problemas, devem visar a dar mais  conforto ao próximo. Utilizemos nossas mãos com sabedoria para o bem.
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