05/02/2021 às 18h35min - Atualizada em 05/02/2021 às 18h35min

A morte de um amigo

A morte de um amigo

Quando pensei em escrever essa crônica, imaginei o sentido literal do termo, como se dá o ritual de passagem de um amigo desse plano terrestre. Velar um amigo, sepultar um amigo, separar-se definitivamente.

Entre tantas outras questões a pandemia colocou em xeque a questão do cuidado que temos uns com os outros, o tempo que nos dedicamos às pessoas, inclusive na hora da morte. Muito foi e é dito sobre não se poder velar um parente ou amigo. Separação definitiva, sem o direito da despedida, quem vivenciou isso, principalmente mais no início da pandemia, sabe o rasgo dessa dor. Meus vizinhos, tão meus amigos, sofreram essa angústia, minha família nem se fala.

Entretanto tenho observado que, em várias situações, muitas pessoas não têm tido o amparo e a solidariedade nessa hora de uma dor tão profunda que chega a ser ausência total de racionalidade e sentimento, Uma amiga se expressou dizendo que não sentia a alma e o espírito dentro do corpo, tamanho vazio.

Antigamente, desde o momento da ciência do suspiro final, a família era amparada por vizinhos, conhecidos, e o ritual de velar o corpo se estendia nas vinte e quatro horas, no cuidado final com o falecido, e a solidariedade e amparo aos envolvidos. Todos sofriam juntos, passavam a noite se escorando em meio a muitas xícaras de café, doses de cachaça, o famoso pão com salame. Não importavam as tarefas que estavam paralisadas porque o momento era de luto, de dor.

Estou um pouco assustada e ainda não inserida nessa nova realidade, amigos de situações, redes sociais e conveniências. As pessoas se declaram frágeis demais para passar uma noite num velório, mesmo quando divulgam em redes sociais, baladas de noites inteiras, são sensíveis demais para acompanhar o outro na dor, no entanto,  mais que contemporâneos para usufruírem da presença do outro para oportunidades que lhes são favoráveis e lucrativas.

Será que selfs em velórios e sepultamentos dariam mais ibope e promoveriam a companhia e a solidariedade, ainda que aparente, nesses momentos? Cada vez que observo o ritual de passagem de um amigo, ou de um parente de um amigo, sinto mais dó de nós, seres humanos, que perdemos nossa essência que é a humanidade. O sentimento de pertencimento a uma espécie, espécie humana.  Onde foram parar a camaradagem, a sensibilidade, o companheirismo? As atitudes e ações só possuem valor se puderem ser postadas em redes sociais?

Então se percebe que os amigos estão morrendo, se perdendo com as pessoas ainda em vida. Se a morte é causada por um acidente violento, ou um homicídio escandaloso, as pessoas estarão lá, nem sempre por amizade, mas como curiosidade de um evento social.

Quando a morte é resultante de um silêncio de uma doença, ou apelo da natureza, isso não causa notícia, não sendo vista mais como um acontecimento que precise de um ritual de passagem. Nesses casos, siga-se o princípio de que os mortos enterrem seus mortos, sem a consciência que de quando perdemos a humanidade já estamos mortos. Que possamos recuperar nossa humanidade, velarmos e sepultarmos  com amizade e solidariedade àqueles que foram partes de nossas vidas e daqueles que amamos.
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