15/02/2021 às 08h35min - Atualizada em 15/02/2021 às 08h35min

Máscaras para o carnaval

Máscaras para o carnaval

Uma vida, aparentemente, programada por um calendário que indica dias da semana, meses do ano, feriados e recessos tão tradicionais, continua, há quase um ano, num compasso que desmistificou a força e o poder humano sobre todas as coisas e assim estamos num carnaval atípico como todas as demais atividades de nosso cotidiano.

Tratando-se de carnaval muitos não têm dificuldades em posicionarem-se, afirmando que não faz falta nenhuma, ao contrário, é até benéfico o cancelamento das festividades que envolvem o mesmo e até a não efetivação do feriado. Felizes desses que facilmente julgam sem antes fazerem uma análise consciente de todos os lados de uma situação.

Acompanho nas redes sociais afirmações sobre o  fato de determinado desfile de uma escola de samba carioca, que representou na avenida o bem e o mal através de Jesus e o demônio ser  condenado como um dos responsáveis por esse vírus atual e todas as mazelas que esse nos trouxe, quisera fosse tão fácil apontar um fato ou grupo como responsável por todas as destruições ocorridas com a humanidade.

A verdade é que esse vírus, apesar de muitos ainda não terem observado, pelo seu gigantismo e grau de destruição é muito mais que a ação de determinado fato  ou de determinado grupo, é a somatória de variadas ações que cada um de nós pratica na vida cotidiana e no montante fizeram com que tivéssemos que esconder nossos rostos, nossas faces, perante a vergonha pelo que estamos nos tornando.

As máscaras antes utilizadas como símbolo de brincadeiras, folia, alegria e divertimento passaram a ser utilizadas para que nos protejamos do contágio de um vírus que, mesmo desacreditado por muitos, é mortal.

No início da pandemia assombrava-me ver as máscaras cobrindo nossos rostos e hoje me assombra como muitas pessoas ainda não reconhecem a necessidade da utilização das mesmas.

A verdade é que ainda não se reconhece que precisamos nos tornar melhores, menos egoístas, mais simples, menos ambiciosos, mais humanos. Não estamos sendo castigados por um vírus, devido a uma apresentação de um desfile de escola de samba. Estamos sendo convocados a refletir sobre a exploração e miséria de muitos, ao fato de querermos acumular bens materiais e para isso desfavorecermos a vida, a imaginarmos que ser esperto é qualidade, mesmo fazendo o outro de alvo, de bobo.

Se eu não percebo que ao explorar o próximo, material, físico ou psicologicamente, me torno tão indigno de mostrar meu rosto quanto àqueles que num grau gigantesco se utilizam do poder em benefício próprio, matam através de ações e omissões, eu não estou aprendendo nada e o vírus, se visto como castigo, não será rapidamente controlado.

As máscaras são a materialização de uma raça que deve encobrir seu rosto devido à miséria de querer acumular, colher sem plantar, receber sem trabalhar, extorquir, apropriar do que não ajudaram, honestamente, a construir.

Quisera que as mazelas da humanidade se resumissem aos desfiles de carnaval e ações humanas nesses dias de folia, por mais imorais que possam julgadas ser; bastaria que fosse essa festividade definitivamente  banida do calendário da humanidade. Difícil está sendo conseguir fazer o ser humano refletir e se tornar melhor todos os dias do ano. Haja máscaras.
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