26/02/2021 às 10h30min - Atualizada em 26/02/2021 às 10h30min

Reminiscências

Reminiscências

Quantas coisas passam por nossas vidas, nos constroem e nos tornam o que somos. Quantas lembranças residem em nossas memórias, fatos, pessoas, momentos, cheiros, sons. E com o tempo vamos armazenando cada dia mais reminiscências.

Um dia desses uma propaganda de material de construção, lembrou-me minha mãe e seu sonho de ter um banheiro todo azulejado, rapa de arroz sempre me remete a minha avó, arroz com suã, mingau de couve, pé de frango, cheiram a meu pai. E assim somos feitos, construídos, possuídos, animados.

Tudo o que um dia foi vivenciado, às vezes de forma difícil, dura, até triste, trazem-nos um sorriso nos lábios, um brilho no olhar. Eita saudade, palavra da Língua Portuguesa, que tão bem nós brasileiros sabemos sentir e viver.

Chegamos a sentir saudades das broncas da infância, das paixões sofridas da adolescência, dos sonhos, esperanças e vigor. A vida parecia jorrar da gente e o desejo exalava da carne e emanava do espírito. Como era fácil planejar o futuro e acreditar que éramos invencíveis, de certa forma, éramos.

Os tombos na rua escorregadia e as gargalhadas dos vizinhos, puxar os tapetes que apareciam sob as portas, tocar as poucas campainhas e sair correndo, brincar de caí no poço e passar anel para desculpa de um beijo, cartas e bilhetes apaixonados, quantas delícias!

Acho que a velhice chegou, verdadeiramente, porque coisas tidas como bobas tornaram-se tão importantes, fazendo-me recordar sensações e momentos que me fizeram ser quem sou e perceber a felicidade   de gozar a simplicidade da vida.

Dinheiro é bom, bens materiais nos proporcionam conforto, mas de nada adiantam se  não formos cercados de coisas preciosas que ficam guardadas para sempre,  como reminiscências não apenas em nossas memórias, mas, sobretudo em nossos corações.

Lembram das carteiras em dupla que sentávamos, com a inocência de não copiar as respostas do colega? Os belos fins de semana circulando várias vezes pela mesma avenida? Sentar na praça para uma boa prosa.

Tudo isso são partes de nós que hoje sentimos saudades gostosas, trazidas pelas reminiscências vividas por uma geração privilegiada. Não precisávamos de redes sociais porque a nossa natureza já era sociável.
 
 
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