15/03/2021 às 08h42min - Atualizada em 15/03/2021 às 08h42min

Não foi assim que a gente sonhou esse encontro

Não foi assim que a gente sonhou esse encontro. Queríamos os alunos indagando se a aula terminaria mais cedo porque era o primeiro dia, reclamando que não tinham como escrever por não terem levado material, sonhamos com a vida borbulhando novamente dentro das nossas escolas.


Como dizia a raposa ao Pequeno Príncipe a espera do encontro já nos proporciona sentimento de alegria e a ansiedade da hora da aproximação da chegada do momento,  faz a adrenalina circular pelo nosso corpo.

Apesar de muitos não acreditarem, quem atua na educação vai me compreender, como esperamos todos os anos, a chegada do ano letivo. O encontro com os colegas, com os alunos. Os alunos e familiares também vão compreender, a ansiedade em comprar os materiais escolares, uniforme, ver o rosto dos professores e dos alunos.

Quando as escolas foram fechadas na metade de março de 2020, inicialmente, pensamos que seria algo muito temporário, acreditávamos que brevemente estaríamos, novamente dentro das escolas, seguindo a nossa rotina. Dias foram passando e na impossibilidade da volta, a educação se adequou ao ensino remoto.

As casas foram transformadas em escolas, quartos e salas em sala de aula. O computador e o celular transformaram-se em elo para uma interação remota, para uma atividade que tem seu cerne, sua essência, no contato. Interação remota em educação é quase uma antítese.

Seguiu-se o ano na quase certeza de que 2021 seria diferente, faríamos nosso retorno de forma presencial, quanta festa seria esse encontro. Adia-se o retorno para março, quem sabe assim, já teríamos mais vacinas, menor taxa de contaminação, menores riscos, mas não foi assim.

Não foi assim que a gente sonhou esse encontro com os alunos novatos, o reencontro com os alunos que estão dando sequência na caminhada de estudos. Sonhamos ver os rostinhos ansiosos dos alunos que estão chegando à escola nova pela primeira vez, ouvir suas vozes.

Queríamos acalmar as mães dizendo que ficaria tudo bem, que tomaríamos conta de seus filhos. Queríamos a praça viva com o alvoroço antes da entrada, o sorriso no portão, o pátio e a quadra cheios, nas atividades de recreação e acolhida, refeitório lotado para o lanche especial.

Não foi assim que a gente sonhou esse encontro. Queríamos os alunos indagando se a aula terminaria mais cedo porque era o primeiro dia, reclamando que não tinham como escrever por não terem levado material, sonhamos com a vida borbulhando novamente dentro das nossas escolas.

Um ano de indagações, angústias, tristes e frustrações. O trabalho da escola não parou, continuamos e continuaremos firmes, os dias letivos garantidos, mesmo trabalhando dezenove sábados, mas a emoção esvaziada e a alma sentida porque o aprendizado só se faz no encontro.

A força da esperança vem do desejo firme de que conseguiremos vencer esse vírus, faremos nossa parte para que a vida seja a maior prioridade e não sejamos coniventes com práticas que fujam das recomendações da ciência e órgãos mundiais de saúde, mas o desejo maior é o de que possamos ter o encontro da forma que a gente tanta sonha, muito em breve. Quanta saudade.
 
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