06/04/2021 às 09h20min - Atualizada em 06/04/2021 às 09h20min

A saudade está no detalhe

(Foto: Pixabay)
Saudade é uma palavra típica da Língua Portuguesa, talvez por sermos um povo que tanto sente e tenha no seu íntimo essa afabilidade, enfim, quem traz em si a intensidade dos sentimentos, tanto se alegra quanto sofre.

Às vezes, erroneamente, imaginamos que as maiores saudades sejam de momentos grandiosos, grandes eventos, viagens maravilhosas. Isso também nos traz lembranças, mas, num linguajar bem simples, são lembranças e saudades felizes. Saudades felizes. Quem diria que esse substantivo abstrato passasse a ser transitivado, exigindo um adjetivo?

Penso que o sentimento gerado por esses momentos sejam apenas lembranças e não saudade. Saudade mesmo, de verdade, é aquela dolorida, reflexiva, de algo que no momento é tão essencial para nós, e hoje eu quero falar dessa saudade causada pela sensação de perda, de viver novamente coisas que, muitas vezes, consideramos simples.

Saudade de nossa cama, de nossa casa, de um café feito na hora quando estamos internados em um hospital ou em alguma forma de reclusão. Saudade da rapa do arroz da avó, do pé de lima do quintal; saudade do almoço de domingo e comemorações na casa dos pais; saudades do filho que partiu para outro plano, mudando o curso natural das coisas.

Essas saudades mesclam sentimentos de gratidão por tê-los vivido e tristeza por não ser mais possível vivê-los novamente. Quem já convive com a saudade de um ente querido sabe como é, de vez em quando, ouvir sua voz, sentir seu cheiro, pegar-se flutuando como se fôssemos transportados para outro tempo ou lugar onde ainda era possível a convivência; comer uma refeição e, entre uma garfada e outra, lembrar que era a preferida dessa pessoa.

A passagem do tempo deixa marcas muito profundas e a forma como trabalhamos nossa mente e coração para convivermos com as saudades acumuladas modifica nosso semblante e a cor do mundo. Saber que a eternidade é ilusória e a finitude de tudo é a grande certeza da vida.

Saudade de ser filho ou filha, do colo que acalmava, do aperto de mão que transmitia segurança, do afago nas incertezas. Momentos. Estranho vocábulo que indica instantes passageiros que podem trazer tantas saudades, lágrimas aos olhos e aperto no coração.
Quem sabe viver seja apenas uma ilusão e essa vida muito besta? Não sei se vai ter molho de legumes com peixes nessa Semana Santa. O gosto ainda pode ser amargo. Saudades, muitas e quantas saudades.
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