22/04/2019 às 17h00min - Atualizada em 22/04/2019 às 17h00min

O homem, o rio e as pedras: uma metáfora da vida

Em tempos chuvosos as águas ganhavam ainda mais força e robustez, o suficiente para arrastar pedras e fazê-las caminhar no leito do rio.

Walber Souza
A paisagem era fantástica, uma casinha simples com características das construções rurais, janelões e portas de madeira; a cozinha, o maior dos cômodos, abrigava uma mesa de madeira vermelha ladeada por dois bancos compridos, neles podiam se sentar umas doze pessoas tranquilamente; num dos cantos aquele tradicional fogão à lenha exalando constantemente o cheiro de fumaça. Para completar aquele cenário bucólico a varanda, que circundava toda a casa, fora construída de sapê, dando um charme maior àquela humilde propriedade.

Tudo isto encontrava-se situado em meio a uma vasta mata. Árvores de todos os tipos, robustas, frutíferas, floridas, grandes e pequenas. Em meio aos galhos ecoavam inúmeros sons da floresta, alguns indecifráveis e outros de pássaros e animais conhecidos. O cenário mostrava-se paradisíaco. Para completar em meio à mata e próximo à casa corria um rio, com águas abundantes, claras, tão límpidas que era possível contemplar o seu fundo, bem como, os peixes coloridos e maravilhosos que insistiam em brigar contra a correnteza. Ao longo do leito do rio, lindas cachoeiras transformavam as águas em novas texturas e ritmos.

E numa noite estrelada, pondo fim ao silêncio da madrugada, naquela casinha simples no meio da mata, surgiam os choramingos do recém-nascido e mais novo habitante daquele paraíso na terra, o menino Gerson. Como toda criança a curiosidade estava presente nas suas travessuras e assim de tempos em tempos o menino. Gerson foi aventurando-se pelas trilhas e caminhos que teciam uma espécie de rede terrestre. Mas o que ele mais gostava era de contemplar a beleza do rio. Todos os dias ele dedicava uns minutos da sua existência para sentar-se à margem do rio, e envolto pela orquestra das águas e da floresta ficava ali sentado admirando tudo que via e ouvia.

De tempos em tempos o ponto de observação mudava. Com o crescer do seu tamanho e da idade ele buscava ir cada vez mais longe. As travessuras do garoto Gerson ganhavam cada vez mais novos horizontes. Assim ele acredita que mesmo sendo a mesma pessoa, bem como o rio também sendo o mesmo, ele nunca estaria admirando a mesma coisa. Ao percorrer as margens do rio ele conheceu muitas coisas, paisagens maravilhosas, animais e plantas encantadoras. 

Mas algo de extrema simplicidade começou a chamar sua atenção. Como todos os dias ele saía do mesmo ponto, o seu lar, e com o passar do tempo ele percorria uma distância cada vez maior, a sua observação do rio ficava também mais precisa. Foi assim que algo lhe despertou a atenção.

Sua casa ficava a pouca distância da nascente do rio, mas a pouca distância não impedia que um belo volume de cristalinas águas ao passarem próximo a seu lar, fruto do acúmulo de outras nascentes, fosse percebido. Em tempos chuvosos as águas ganhavam ainda mais força e robustez, o suficiente para arrastar pedras e fazê-las caminhar no leito do rio.

E justamente isto começou a chamar a atenção do jovem Gerson, o caminhar das pedras movidas pelas águas do rio. Ainda criança brincava s margens do rio, próximo à sua casa, com as pedras que ornamentavam o seu percurso, as pedras pequenas geralmente eram devolvidas para o rio e as pedras maiores eram usadas como passarelas na intenção se chegar na outra margem. Mas todo o ano, depois das chuvas, as pedras não eram as mesmas, todas com as forças das águas eram removidas de lugar.

Gerson, devido às suas constantes aventuras, foi observando também que as pedras ao longo do leito do rio iam se modificando, devido às forças das águas, às quedas das cachoeiras, das brincadeiras das pessoas que passavam pelo local, do contato de uma com as outras, lentamente provocava uma metamorfose em cada uma daquelas pedras.

O adulto Gerson, observou que as pedras pontiagudas e irregulares que compunham o cenário do início do rio, foram ganhando novos contornos, ficavam polidas, lisas, arredondadas e formavam bem distante da sua casa um lindo tapete de pedras. Pedras branquinhas que se ajeitavam no fundo do rio, nas proximidades de uma linda cachoeira, permitindo que ali as pessoas pudessem aventurar-se, de uma margem a outra sem correr o risco de se machucarem e transformando-o num ponto de lazer coabitando com a felicidade.

Deste dia em diante, as pedras ganharam um novo sentido, um sentido que imita a vida!
 
Walber Gonçalves de Souza é professor e escritor
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