02/06/2021 às 15h38min - Atualizada em 02/06/2021 às 15h38min

Viva no mundo dos mortos

(Foto: reprodução)

Sepultura, catacumba, cova, mausoléu, tantas palavras para expressar a mesma situação: depósito de corpos sem vida. Não se assustem com as palavras que iniciam essa crônica, afinal, pelo que todos afirmam a única certeza da vida é a morte.

No imaginário de cada um, dependendo das crenças e convicções que se tenha, o mistério do post-mortem se concretiza na mente e muitos vivem freados pela esperança de uma realidade melhor. Nada com relação aos pensamentos de cada um. A finalidade hoje é outra reflexão: como continuar vivo quando as pessoas que constituem a base da nossa história vão sendo sepultadas, seus corpos enterrados e a lembrança deles é ainda uma constante em nossas mentes?

Existem várias discussões sobre quanto tempo dura um luto ou como se proceder durante um luto, mas as teorias, por mais místicas e filosóficas que sejam, não captam o vazio deixado pela ausência dessas existências. O vazio da vida se inicia quando começamos a sepultar nossos entes queridos.

Festas sem pais, avós, tios, primos, filhos, deixam de ser comemorações e se tornam apenas protocolos. As lembranças tornam-se saudosas e doloridas, não que possam ser classificadas de tristes, mas nostálgicas. Detalhes trazem lágrimas nos olhos e aperto no coração.

Não é fácil manter-se viva no mundo dos mortos porque o colorido e a vivacidade da vida desaparecem, não se tem muito onde buscar forças,  como uma árvore que perde suas raízes e não lhe resta muita coisa a não ser ir morrendo aos poucos, murchando e secando as folhas até perder o tronco.

Viver no mundo dos mortos é acordar todos os dias e seguir, aguardando as próximas perdas, tentando criar sonhos, mas as lembranças passadas são tão fortes que não deixam muito espaço para planos futuros.

A comida sempre lembra alguém, os espaços recordam. Eu, durante um tempo ,pensei que fosse a idade, mas aos poucos descobri que não. Independentemente da faixa etária, viver no mundo dos mortos provoca desesperança.

Alguns confundem esse sentimento com força, experiência, mas não é; a fragilidade fica escondida sob o pó da lembrança do que foi, dos que foram, os projetos que representaram, os sonhos que dividiam, a base que nos davam tornamo-nos mortos vivos, quase zumbis. Não pertencemos ao mundo dos mortos fisicamente, mas nossa alma não pertence mais ao mundo dos vivos exclusivamente.

Quisera a leveza e a beleza da época na qual a morte não era uma realidade tão presente em nossas vidas e atribuíamos a ela um significado meio sobrenatural, místico, misterioso, medo de fantasmas, de almas penadas.

Hoje, a presença quase constante, marcante da morte, nos faz querer reencontrar esses seres queridos, mesmo que em forma citoplasmática, por instantes. Quem dera fossem verdades nossas crenças infantis e pudéssemos reencontrar os nossos que se foram... Muito chato se viva, no mundo dos mortos.

 

 

Link
Relacionadas »
Comentários »
" data-width="400" data-hide-cover="false" data-show-facepile="true">