21/06/2021 às 15h47min - Atualizada em 21/06/2021 às 15h47min

Kissaku

(Foto: Getty Images)

Transgressão, indignação, submissão, solidão, resignação. Jogar-se no sofá e deixar-se ficar, jiboioar. Kissaku. Viver está deixando de ser uma grande aventura, maravilhosa. Kissaku ter que se modificar para agradar padrões, viver sob pressões, não poder ser, sem se aborrecer.
 

Durante muito tempo, acreditar que todos os sonhos eram possíveis, conviver com rostos irreconhecíveis, deixar-se levar sem alegria em criar, modificar, amar. Viver tornou-se um saco. Um saco em vários aspectos semânticos; o peso do fardo, aprisionado, limitado.
 

Há tempos que deixamos de ser livres, mas só nos demos conta disso plenamente com a pandemia. Ir e vir restritos representaram muito mais que a limitação do espaço, comprovou a restrição da vida; flores mortas antes de desabrochar, sem direito a perfumar se não for num odor sofisticado.
 

Kissaku não poder mais andar descalço porque o charme virou o salto, o designer, a alienação. O empacotamento tornou-se a vácuo, sem nenhum direito a ar para respirarmos.
 

Comer usando as mãos virou falta de educação, se não usarmos os talheres adequados. Checar rótulos de alimentos, checar peso corporal e índice calórico a todo momento; comer deixou de ser um prazer. É preciso se cuidar para estar saudável, mas o corpo e a mente não conseguem acertar uma sintonia.
 

Postar tornou-se o viver, sem cliques não é ser, olhar-se no espelho e não conseguir se reconhecer porque o designer é ser igual, modulado. Nascer, crescer, amadurecer, envelhecer, morrer, ciclo muito chato. Porque não se pode pular fases? A realização virou sinônimo de produção. Para ser feliz é preciso vencer, esquecendo-se que a vida não é uma competição.
 

Trabalhar excessivamente para sobreviver, triste herança de Adão; sepultar pessoas que amamos... De sonhos que por tanto tempo nos sustentaram, imensa intoxicação. Conviver com falsidades, traições, inimizades, podridão.
 

Numa conversa informal, ouvir de uma jovem que o maior lixo produzido pela humanidade é o próprio ser humano, questionar um pensamento que, inicialmente, pareceu insano e compreender uma geração que não se acredita, que não confia em seu semelhante.
 

Dar aula virtual, ter que estar sempre com um sorriso no rosto, o corpo bem disposto e uma grande ideia na cuca para parecer ser interessante. Kissaku não poder simplesmente ser sem provar nem demonstrar nada para ninguém, principalmente a nós mesmos.
 

Kissaku não conseguir desfrutar os momentos, expressar todos os sentimentos, aproveitar nosso tempo em ser feliz. Cumprir a agenda da rotina diária nos transformou em seres automatizados num cérebro que foi programado para a liberdade.
 

Viver transformou-se num imenso fardo. Como seria libertador poder voltar a ser, simplesmente, feliz!

 Kissaku!!!

 
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