30/07/2021 às 15h29min - Atualizada em 30/07/2021 às 15h29min

DECRESCENTE

DECRESCENTE

Sentimentos estranhos acometem o coração e o cérebro, procura registros sobre as causas; entre uma pedalada e outra se chega a uma conclusão na metáfora das fases da lua: lua nova, lua crescente, lua cheia, lua minguante. Considerei minguante um tanto deprimente e optei pela palavra decrescente.

A diferença entre a lua e nós é que ,após a minguante, a lua se renova iniciando um novo ciclo. E nós, se temos um ciclo novo, é em outro plano, outra dimensão, de acordo com a crença de cada um.

Não é fácil vivenciar uma fase minguante, aceitar as limitações que o tempo nos traz, os cansaços, a opacidade, a perda da vitalidade, do esplendor, da idade e tempo a nosso favor. Observo o mundo e começo a perceber que já passou o tempo, já passou do tempo, já não há mais idade e tempo.

Que beleza quando ainda se imagina ter todo o tempo do mundo, que ainda se pode esperar, que dá tempo de aguardar, que dias melhores virão; doces e belas idades que nos permitem sonhar em ganhar o mundo, fazer grandes projetos.

Não se trata de não querer envelhecer, de mentalidade ativa. Trata-se do ciclo natural da vida, independentemente da situação do corpo e mentes serem sanos. Envelhecer acontece como um processo natural, limitando a existência humana na completude da irradiação de energia cheia, plena, completa.

Vida útil, inútil, produtiva, improdutiva, vários podem ser os adjetivos, e podemos optar por ignorar todos, mas não é fácil decrescer. Muito se fala sobre a dificuldade da adolescência, ritual de passagem para a vida adulta, mas pouco se fala sobre dessa transição para a velhice, o decrescer.

Não somos preparados para descer as escadas, apenas subir as rampas, e quando chega o momento ,a indagação povoa o cérebro exigindo uma resposta que não cabe nos limites da existência.

O sobrepeso das histórias vividas, das batalhas lutadas, das conquistas, das perdas; insano ser humano e querer racionalizar o que não cabe razão. Jovem para aposentar, velho para iniciar outras carreiras; como equilibrar-se no trapézio da vida?

Gostava dos tempos felizes nos quais eu imaginava sempre mais, conseguia imaginar longínquos futuros com grandiosas realizações, acreditava ter super poderes e o impossível era apenas uma questão de opinião. Era possível mudar as pessoas, o mundo e tudo, tudo poderia acontecer.

Visualizava lugares, viagens, pessoas, outra vida num outro espaço, acreditando um dia poder habitar. Realizar seria apenas uma questão de tempo e escolha de caminhos. Idealizadora de cenários que me pareciam tão reais mesmo habitando apenas o  mais íntimo da minha consciência.

Hoje consigo apenas visualizar um muro através da janela, a miopia embaça a minha visão ao longe e a hipermetropia não me deixa aproveitar os detalhes de perto, coisa difícil de aceitar e acostumar-se aos ajustes da idade. Ainda não tenho orgulho do passado, mas não consigo vislumbrar planos para um futuro. Viver o presente, em determinadas fases ,é entediante. Nascer, crescer, decrescer e morrer.
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