28/09/2021 às 15h23min - Atualizada em 28/09/2021 às 15h23min

Respingos

Confira a crônica de Simone Aparecida de Sousa Capperucci

(Foto: Getty Images)
Durante a vida tomamos tanta chuva, passamos por tantas tempestades e na  vivência do instante, do momento, não nos damos conta de que os respingos vão ajudando a construir nossa existência.

A inocência da infância  nos faz perceber o cheiro de terra, as gotas caindo dos telhados, as poças de água deixadas pela chuva. Com o tempo vamos tomando consciência de que algumas vezes as chuvas deixam estragos, causam destruições, até mortes e ,com o amadurecimento proporcionado pela idade, vamos observando que podemos tomar alguns cuidados, mas não conseguiremos fugir das tempestades.

Todos somos molhados pelas chuvas, os respingos saltam sobre todos nós. Esses respingos, essas gotas não molham apenas nossa pele, infiltram por nossos poros e vão invadindo nosso corpo. Os anos vão nos deixando encharcados, trêmulos com o frio que vai chegando aos nossos ossos. Por mais  que estejam numa boa temperatura, os respingos da chuva provocam calafrios que atingem nossos corações e nossa mente.

Essas sensações ficam registradas permanentemente em nossas lembranças e assim, mesmo em dias ensolarados, nos quais a alegria parece reinar, os arrepios aparecem, sem nenhum aviso, sem motivação óbvia e aparente.

Esses calafrios nos fazem recordar das tempestades, do medo do imponderável, das possibilidades da imediatez da finitude e, como seres humanos, nesses instantes dos calafrios, tomamos consciência da precariedade da humanidade perante o cosmos. Viver é aprender a equilibrar-se entre os sonhos e a realidade.

Muitas vezes nos pegamos querendo o impossível, a inocência da infância junto a irreverência e sensação de plenitude da juventude; com o amadurecimento da vida adulta, querência impossível, uma vez que cada uma dessas fases, são momentos estanques e essenciais para que construamos quem somos, quem nos tornamos, para onde vamos e até onde chegaremos.

Viver é aprender a aquecer o coração, apesar dos respingos deixados pelo tempo, pelas lembranças. A memória é um HD que não para de funcionar, mas não pode travar-se nas tempestades e calafrios provocados pelos respingos, por mais difíceis que sejam os momentos pelos quais estivermos passando. Acreditar que nada dura para sempre, incluindo os períodos ruins, é combustível para não estagnarmos e continuar com o círculo ou ciclo  da vida.

Perceber que o sol nos aquece e que as tempestades são finitas e curtas é necessário para seguirmos, mesmo quando sob tempestades. Por maiores que sejam as tormentas, que a Força Maior não nos permita deixar de  sonhar. Tempos sombrios, vida difícil, mas nada supera a força da vida.
 
 
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