02/05/2019 às 17h14min - Atualizada em 02/05/2019 às 17h14min

A Persona e a Sombra nas instituições de trabalho.

Reconhecer a Persona e a Sombra é de grande importância para o desenvolvimento da personalidade

Jung compreendeu que nós agimos de maneira diferente em cada ambiente social, e que precisamos ser aceitos para pertencermos ao grupo. Dessa forma, nos adaptamos ao ambiente utilizando papéis sociais (advogado, analista, operário, mãe, esposa, etc.) que desempenhamos na coletividade, a fim de também mantermos nossa sobrevivência.

A Persona foi o termo empregado por Jung para a faceta social que o indivíduo apresenta ao mundo "uma espécie de máscara projetada, por um lado, para fazer uma impressão definitiva sobre os outros, e por outro, dissimular a verdadeira natureza do indivíduo". (Jung OC VII) 

A palavra Persona (máscara) deriva do teatro grego, onde o ator utilizava uma máscara para construir seu personagem. Ela pode se referir à identidade de gênero, aos estágios do desenvolvimento das fases da vida, ao status social, a um emprego ou profissão. “Às vezes, a persona é referida como o “arquétipo social”, envolvendo todos os compromissos próprios para se viver em uma comunidade.” (Andrew Samuels, 1986)

A identificação com o papel social pode se tornar fonte de muitas neuroses, desencadeando reações inconscientes que foram impedidas de se realizarem: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios, etc., que pertencem ao domínio da Sombra. Ao tratarmos do inconsciente pessoal, ela se refere ao que Jung denominou como complexos (“fragmentos psíquicos cuja divisão se deve a influências traumáticas ou a tendências incompatíveis”, Jung OC VIII/2), considerados por ele um fator determinante do comportamento humano.

A Sombra é o conjunto de todas as características desagradáveis que a pessoa esconde, o lado inferior e primitivo de sua natureza, o “outro” oculto em um indivíduo, seu próprio lado obscuro. Mas é também a fonte viva dos instintos de onde brota tudo o que é criativo.

A família, a escola, a igreja, o ambiente de trabalho também contribuem indiretamente para a “repressão da Sombra”, ao influenciar nosso comportamento para que alcancemos adequação, adaptação e sucesso. No trabalho, tentamos agradar escondendo nossas porções desagradáveis — nossa agressão, rivalidade ou opiniões ousadas.

Para muitas pessoas, o aspecto psicológico e o espiritual ficam comprometidos, por terem reprimido tantas partes de si mesmas na Sombra, descobrem ter "vendido a alma à empresa ou à instituição onde trabalham”. Esse processo se torna perigoso, pois a Sombra se torna carregada, impenetrável e inflexível, e pode adquirir vida própria se tornando destrutiva.

A Sombra no ambiente de trabalho, em oposição à Persona, surge quando as pessoas desconsideram em demasia suas necessidades pessoais de lazer, descontração, intimidade, vida familiar, e se entregam completamente ao trabalho, de forma compulsiva e viciada.

Para que os problemas da Sombra, no ambiente de trabalho sejam administrados de forma adequada, é necessário às organizações um sistema aberto de comunicação, harmonizando valores, propósitos e até mesmo ajudando os funcionários a desenvolverem seus anseios mais profundos.

A motivação no funcionário também tem profunda ligação com a Sombra. Esta, ao ser negada, não desaparece, mas se alimenta de energia negativa e quanto mais cresce inconscientemente, mais adquire forças para atuar autonomamente, consequentemente, ela surge na forma de projeções negativas, obsessões, transtornos psíquicos, compulsões, possessões, doenças psicossomáticas de vários tipos.

Contudo, reconhecer a Persona e a Sombra é de grande importância para o desenvolvimento da personalidade, pois muitas vezes levamos nossas Personas tão a sério que esquecemos nossas facetas mais íntimas e particulares. É preciso uma auto-observação e preocupação com o autoconhecimento para nos relacionarmos ao eu verdadeiro, pois nesse processo de utilização adequada das máscaras, há um ganho pessoal incalculável, um ganho de amor próprio e autoestima que contribuem para o bem estar, saúde pessoal, emocional e social.

Não desenvolver a “Persona” é tão negativo quanto tê-la em excesso. Ela é necessária para nos relacionarmos com civilidade. Não podemos falar tudo o que sentimos e pensamos, há limites, respeito ao próximo. Da mesma forma a integração da Sombra à consciência, na assertividade de seus conteúdos positivos, possibilita uma maior aceitação e reconhecimento de si mesmo, uma melhor convivência com o próximo e um passo a mais na ampliação da consciência e da personalidade através da harmonização com o sua totalidade (Self), tornando-se quem se é e realizando-se plenamente!
 
Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
30 anos de experiência profissional
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