03/06/2019 às 09h13min - Atualizada em 03/06/2019 às 09h13min

Agressividade humana e suas consequências no trânsito.

A importância da Psicologia na prevenção de acidentes

Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará. [...] quando é recalcada e isolada da consciência, nunca será corrigida. E, além disso, há o perigo de que, num momento de inadvertência, o elemento recalcado irrompa subitamente. (JUNG, 1983)

 

A agressividade em seu aspecto destrutivo e negativo tem dominado o comportamento humano nos momentos mais críticos do tráfego estressante, causando conflitos e mortes. Em tempos de rapidez, agitação e repressão de conteúdos imprescindíveis ao equilíbrio humano, se manifesta no homem uma “vitalidade autônoma” tornando-o destrutivo e agressivo, notadamente em ocasiões oportunas, como nos momentos em que o trânsito torna-se tumultuado, lento e literalmente caótico.

Enquanto presença constante no comportamento humano, a agressividade pertence aos domínios da Sombra, um dos múltiplos componentes da estrutura psíquica, que jaz no inconsciente coletivo (comum aos seres humanos).

A Sombra é entendida como: pulções instintivas, aspectos arcaicos e indiferenciados, conteúdos irracionais da conduta humana, como também, as tendências contrárias às regras cultural e historicamente dominantes. Ela é nossa faceta “natural”, que contém também as sementes do desenvolvimento potencialmente positivo, que ainda não se encontram à disposição da personalidade consciente.

Como parte da totalidade humana, a agressão é um elemento importante do processo de individuação (tronar-se completo). Há relatos antropológicos de grupos étnicos que se desagregam por falta da agressão, por exemplo, algumas tribos brasileiras, que desprovidas de agressão, não sabem lutar pelo que lhes pertence e são possuídos por depressão e mesmo morte. Por esse motivo, Walter Boechat afirma que “a agressão bem integrada é base de uma assertividade sadia.”.

Os infratores com alto índice de agressividade e ansiedade envolvem-se com maior frequência em acidentes de trânsito. MacMillan (1975) considera que os acidentes de trânsito acontecem em “pessoas frustradas, ou insatisfeitas consigo mesmas e com o mundo que as cerca.” No trânsito, o veículo automotor pode se transformar em uma arma perigosa. Assim sendo, é necessário precaução ao entregar uma arma a alguém sem antes conhecer de quem se trata.                                             

A Psicologia do Trânsito no Brasil atualmente se reduz à avaliação psicológica para o processo de obtenção e renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CHN), tem como intenção identificar os processos psicológicos mínimos exigidos para o uso seguro da habilidade de dirigir.

No entanto, é indispensável a participação de profissionais de Psicologia do Trânsito em projetos e ações voltadas ao trânsito em parceria com outros profissionais, para combater a agressividade e a violência no mesmo.

Cabe aos profissionais desta área, através da psicoterapia, acompanhar os condutores em seu desempenho no trânsito, investigando traços da personalidade que se relacionam a comportamentos impulsivos, intolerância à frustração, violência no volante, imprudência, desatenção, irresponsabilidades, inexperiência, negligência entre outros comportamentos que levam a uma direção perigosa e provocam riscos na condução de um veículo.  Da mesma forma, incentivar também o cumprimento do Código de Trânsito Brasileiro, pois o mesmo inclui leis sobre educação de trânsito.

A violência do trânsito no Brasil é gritante, pelo menos 35 mil pessoas morrem por ano em decorrência de acidentes e o Brasil ocupa o 5º lugar em mortes no trânsito, gerando aos cofres públicos prejuízo de cerca de 2 bilhões de dólares por ano.           

Torna-se necessário uma avaliação mais completa que proporcione os elementos necessários para prevenir em maior grau a ocorrência de acidentes de trânsito. Faz-se necessário, também, iniciativas que ajam diretamente no comportamento e conscientização dos condutores, já que a principal causa de acidentes de trânsito decorre de falhas humanas.

A Psicologia do Trânsito recomenda um sistema viário mais humanizado, em que o conceito de prevenção de acidentes está diretamente associado à educação [...] Os motoristas devem estar preparados e sensibilizados não apenas com informações sobre sinalização e regras para direção, mas principalmente sobre sua conduta. Essa proposta é uma aprendizagem humanizada, que acende uma modificação no comportamento do indivíduo, em suas escolhas, atitudes e personalidade, que penetra em seus valores e age na mudança de seus comportamentos.

Assim sendo, o trabalho com a agressividade humana é relevante e contribui para um melhor entendimento do seu funcionamento no trânsito, colaborando para que o condutor possa integrá-la de forma positiva e encontre, como ensina Jung, o melhor caminho por meio do qual a consciência humana e a Sombra possam ter uma convivencia harmoniosa.

Eneide Caetano

Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 

Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)

Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual

Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito

30 anos de experiência profissional

 

Fontes:

https://PSICOLOGIA-NO-TRÂNSITO.pdf

http://site.cfp.org.br/ Livro_PsicologiaTrafegoweb22.pdf

https://Educação-para-o-Trannsito.pdf

https://veltec.com.br/psicologia-do-transito-prevencao-acidentes/

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