10/06/2019 às 11h32min - Atualizada em 10/06/2019 às 11h32min

O relacionamento afetivo e as projeções psíquicas

“[..]a paixão que excede os limites naturais do sentimento de amor tem como fim supremo o mistério da totalidade, e é por isto que quando se ama apaixonadamente tornar-se com o ser amado uma só pessoa é o único objetivo válido de nossa vida.” (Jung, sd)

Carl Gustav Jung utilizou os termos Anima/Animus para descrever a dualidade sexual da natureza humana, a essência psíquica do homem e da mulher, suas partes, precisamente, feminina e masculina que, entre outras funções, impulsionam cada ser na busca da pessoa amada.  Responsáveis pelos grandes amores, paixões, união entre os sexos e mesmo desavenças, a Anima, sendo a parcela feminina no interior do homem, tende a projetar-se em uma mulher real, ocorrendo o mesmo com o Animus, pois suas características assemelham-se à consciência dos que recebem a projeção.
 
O fator psíquico contra-sexual, quando projetado, alimenta as fantasias eróticas e os desejos sexuais do indivíduo. O homem ou a mulher, que carrega tal projeção, torna-se alvo de tais desejos e fantasias. O indivíduo é, então, impelido ao relacionamento sexual com a pessoa que, para ele, traz a imagem do seu contraponto interior, sentindo uma sensação de completude após a cópula, quando tem a impressão de momentânea unidade com o outro. (Sanford, 2002)
 
O contato positivo com a Anima (homem) e o Animus (mulher) amplia a consciência, fortalece o Ego, enriquece a personalidade com as qualidades inerentes a estes arquétipos (predisposições psíquicas herdadas), proporcionando-nos equilíbrio e integração, já que tais arquétipos despertam e colaboram na capacidade do ser humano para o amor, o sentimento, o afeto, a cooperação, a espiritualidade e para o estabelecimento do relacionamento pessoal do indivíduo consigo mesmo e com o outro.
 
O início de um relacionamento, é quase sempre ilusório, fascinante e carregado de projeções, a imagem refletida no outro cria certo encantamento e o parceiro não é ainda percebido em sua realidade, as expectativas formadas em relação ao outro proporciona um começo maravilhoso. A Anima e o Animus quando projetados no parceiro, criam a sensação de completude que surgiu com a atração, tudo “parece” perfeito, com promessas futuras, abrindo perspectiva para nova dimensão da existência.
 
Nesta fase do relacionamento, onde se está apaixonado, o companheiro ainda não é conhecido totalmente e a polaridade que existe em todo relacionamento não é percebida conscientemente. Contudo, a convivência e o desgaste do dia a dia, com a revelação da realidade, as complicações e consequentes decepções surgem, e podem transformar a relação harmoniosa em cobranças, na dificuldade em aceitar o parceiro como ele é.
 
Eros, deus do amor, se manifesta com suas qualidades conectivas, afetivas e função psíquica de relacionamento, princípio de união. O contato com este princípio favorece uma melhor compreensão de nós mesmo, do outro, da união harmônica com o parceiro e com todo universo. (Jung, 1986)
 
Eros, se revela, como a união dos opostos. Ele é a libido que conduz nossos desejos a se realizarem na ação, concretizando nossas virtudes no ato que se consolida por meio do contato com o outro, de trocas materiais, espirituais e afetivas! Eros procura superar as incompatibilidades, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Assim, o amor é a busca de uma unificação para realizar-se plenamente. [...] De tal modo, o amor se torna uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação. Eros como centro unificador favorece o enriquecimento dos parceiros quando há entrega total, reciprocidade e generosidade, “que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos”. (Brandão, 1986)
 
Na era tecnológica de acentuado individualismo e egocentrismo, o princípio harmônico de Eros tem se distanciado da conduta humana, surge então seu lado sombrio e “pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em cisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente.” Talvez necessitemos de um retorno ao tempo do amor mais puro, para resgatarmos o aprendizado onde haja mais lugar para o riso, a doçura a paz e a ternura. (Brandão, 1986)
 
Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos, se ambos se encontrarem em estado inconsciente. [...] Apenas onde existe a distinção, pode aparecer um relacionamento. (Jung,1986) A possibilidade do relacionamento entre duas almas surge na tomada de consciência, onde existe a diferenciação psíquica e o respeito às diferenças, assim o verdadeiro relacionamento floresce e o casal recebe as bênçãos do deus do amor!
 
Eneide Caetano
 
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
 
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
 
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
 
30 anos de experiência profissional
 
Fontes:
 
BRANDÃO, Junito de Souza. MITOLOGIA GREGA. Vol. I. Petrópolis, RJ. Vozes. 1986
 
 
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s.d.
 
__________ Aion - Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes,
vol. IX/8, 1986
 
SANFORD, John A. Os parceiros invisíveis. 7. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
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