26/06/2019 às 09h20min - Atualizada em 26/06/2019 às 09h20min

Janelas

A necessidade de exorcizar ou rabiscar, colocar no papel ideias que povoam o cérebro, há tempos atormenta-me e, um dia, conversando com um estrangeiro amigo, minha atenção foi despertada para a palavra janela. Esse amigo, disse-me que, durante um show da cantora brasileira Ana Carolina, na cidade de Roma, na Itália, a mesma saudara as pessoas que assistiam ao seu show das janelas.

Esse amigo, não fala nosso precioso idioma, mas é um admirador da língua e guardou na lembrança essa palavra: janela. Quando teve a oportunidade de encontrar uma falante da Língua Portuguesa, como língua materna, fez questão de demonstrar o carinho sentido ao escutar um vocábulo tão distinto dentro do léxico da língua.

Ao mesmo tempo, ao passear pelas ruas medievais da Toscana, vi-me embevecida pelas janelas das casas que, em silêncio diziam-me tantas coisas. Meus olhos não conseguiam se desviar daquelas janelas, que também eram olhos daquelas casas. Sinestesias à parte, desde esse tempo, propus-me a escrever um livro de crônicas, cujo nome seria Janelas e soube, no mesmo momento que o assunto das mesmas seria o que é possível ver e viver, através das incontáveis janelas, em diversos recônditos do mundo. Borbulhando, as ideias tiravam-me de realidades nem sempre reais.

A escrita tem diversas possibilidades e eu já me considerei capaz de usar dessa ferramenta para questões mais polêmicas do cotidiano, mas a prudente e bonachona idade, tornou-me menos crítica, mais amorosa e feliz: hoje eu prefiro cultivar jardins e uso a escrita para fruição. Felizes aqueles que plantam hortas e usam da literatura para provocar o senso crítico, verdadeiros escritores; eu prefiro ser uma moleca, que brinca, despretensiosamente com a língua.

Todas essas digressões foram para justificar como as ideias brotaram para produzir o livro. O título estava pronto. Alguns poderão debochar e pensar, apenas o título, mas a verdade é que, às vezes se está no final da obra, toda escrita, e o nome do título, atrasa toda a publicação. Dessa ansiedade  eu não morreria.

Já tínhamos o gênero: crônica. Já tínhamos o título: Janelas. Agora seria escrever. Quem escreve sabe que o escritor, todo escritor possui uma tática particular para escrever, um gatilho qualquer que coloque em ação sua criatividade, sua genialidade. O problema era que eu não sou uma escritora. O tempo foi passando, outras idéias borbulhando e, de vez em quando, a lembrança do inacabado voltava à minha mente. Outros surgiram e ficaram inacabados como esse.

 Os cinco homens da mansão, que nas férias de janeiro, surgiram nas páginas do meu facebook, um romance que quase fundiu meu cérebro, devido ao segredo que envolve o mistério. Corpos no asfalto é outro projeto que vive no campo das idéias do inacabado. Seria Janelas mais um? Raramente eu encontrava alguém que entendesse minhas histórias, para compartilhar o que se passava em minha cabeça.

No campo dos pensamentos eu resolvi que todas as crônicas se chamariam Janelas, cada uma num idioma diferente, vamos Google: the  windows, les fenêtres, las ventanas, finestre, fenster, olhos, janelas.Esses seriam alguns títulos possíveis.Mais um passo dado.Três anos atrás, visitando O caminito, em Buenos Aires, tive certeza de quais lugares Las ventanas contariam suas histórias mas  nada de colocar, pelo menos uma das crônicas no papel.

Bingo! Descoberto o problema, não existe o papel. Quando fui convidada a escrever para esse espaço, tentando ser uma escritora, mas possuída pela moleca, tive um insight. Quase gritei: Eureca! Janelas seria publicado aqui, periodicamente nessa coluna. Isso resolveria muitos problemas: obrigaria-me a escrever, me daria um público para ler, descustaria-me a publicação.

Entendi com isso que, as colunas sociais são, muitas vezes, os olhos do escritor e de algumas molecas que brincam com a língua, o meio de comunicação que permite a interação autor/leitor prestam um serviço de afetividade, criam laços entre colunistas e leitores. “Amar é criar laços” diz  O pequeno príncipe.

Tão bom! Em meio à escuridão, fez-se a luz. O menino vai ser gerado e nascer. Parto pós-moderno, gestação surreal. Não que eu tenha a prepotência, a arrogância ou a ignorância de desconhecer que vários colunistas tiveram suas crônicas compiladas e transformadas em livros. A excentricidade ou, caso queiram, a novidade, está no fato de aqui já ser a publicação, além disso, não se deseja a exclusividade.

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
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