01/07/2019 às 10h32min - Atualizada em 01/07/2019 às 10h32min

O Patrimônio Histórico Cultura e a Identidade Coletiva

“A alma não é de hoje! Sua idade conta muitos milhões de anos. A consciência individual é apenas a florada e a frutificação própria da estação, que se desenvolveu a partir do perene rizoma subterrâneo, e se encontra em melhor harmonia com a verdade quando inclui a existência do rizoma em seus cálculos, pois a trama das raízes é mãe universal.” (Jung 1950/1986)

Expressão direta do inconsciente coletivo (comum a todos) – os mitos, a religiosidade, a poesia, o folclore, os contos de fadas, a música, a arte, o teatro e nossos patrimônios históricos cultuais encontram-se como formas semelhantes, em todos os povos e épocas e têm a função de abrir as questões da vida à reflexão transpessoal e culturalmente imaginativa, favorecendo o contato do ser humano com as forças criadoras do seu ser!

Eles constituem o “tesouro oculto da Humanidade sem os quais o homem deixa de ser homem” (Jung1916/2001). Permitem assim vivenciarmos nossa totalidade e nos realizarmos plenamente, pois são referências para a estrutura psíquica saudável e representam sua expressão maior. O desprezo e abandono em relação a eles, adoecem e desestruturam o ser humano.

Segundo Jung, “nosso cérebro é moldado e influenciado pelas experiências da humanidade. [...] É provável que toda a experiência “impressionante” seja precisamente um mergulho nas profundezas de um antiquíssimo e anterior inconsciente” (Jung, 1916/1978). Esta disposição e necessidade de apreender e experimentar a vida de uma forma condicionada pela história passada da humanidade recebeu de Jung a designação de “arquetípica”.

Encontramos na vastíssima variedade de expressão cultural, tradições e crenças, nossa “identidade coletiva” que nos aproxima uns dos outros ao expressarem nossos anseios maiores de comunhão com um objetivo que nos enriquece e nos conecta com nossas raízes profundas e espirituais.

O mestre da Psicologia Analítica nos ensina que não é somente na clínica que a psique se revela, “mas principalmente no mundo da vida, assim como nas profundezas do passado, [...]a psicologia do homem moderno depende das suas raízes históricas, e só pode ser julgada por meio das suas variantes etnológicas.” (Jung 1952/1978)

A preservação dos patrimônios culturais é de grande valor histórico, arquitetônico, ambiental, cultural e emocional para uma população. Na vida dos primitivos, eles têm um significado fundamental para a existência desses povos, são a essência da tribo, a qual perde suas conexões, se degenera e desaparece quando rompe a ligação com a identidade simbólica que eles representam.

Quando um patrimônio é destruído, todos nós somos lesados no fundo de nossa alma coletiva e o dano maior é a cisão com nossos semelhantes e com o que nos conecta com nossas raízes mais profundas.

Os símbolos que se manifestam em todas as atividades que formam a identidade cultural de um povo, são os padrões do comportamento humano para a sua trajetória das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente e formam a identidade cultural de uma nação para uma vivência mais criativa.

Por intermédio deles a Consciência pode voltar às suas raízes para se revigorar, realimentar-se e continuar se expandindo. “Com o recurso da imagem e da fantasia, os mitos, principal produto na formação e manutenção da identidade de um povo, abrem para a Consciência o acesso direto ao Inconsciente Coletivo” (BRANDÃO, 1986).

Os Patrimônios Históricos e Culturais contribuem para o “senso de pertencimento.” de modo que as pessoas se vejam pertencendo a uma determinada comunidade através do que têm em comum, favorecendo a comunhão do indivíduo com a coletividade. Este senso nos dá a sensação de participarmos de algo maior que nós mesmos, nos dá força e incentivo para lutarmos por uma causa, que é comum a todos. Esta inserção faz com que os indivíduos se sintam úteis à comunidade e reúnam-se em diferentes causas, como fizeram muitos de nossos antepassados.
 
Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG 
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
30 anos de experiência profissional
 
REFERÊNCIAS:
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Gtrega. Vol. I. Petrópolis, RJ. Vozes. 1986
JUNG, C. G. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, v. V, 1986b
__________. Psicologia do Inconsciente. 13ª. Ed. Petrópolis: Vozes, v. VII/1, 2001
Fordham, Frieda.  Introdução à Psicologia de Jung - 1978
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