03/07/2019 às 15h08min - Atualizada em 03/07/2019 às 15h08min

Olhos

Caso algum leitor atento tenha guardado o que afirmei na última coluna vou logo me desculpando, mudei um pouco a ordem das coisas, uma vez que algumas delas tocam-me a alma com mais urgência.

O bom do espaço virtual é que virando e revirando a ordem dos textos não alterarão o livro, o mesmo não se conseguiria com a publicação impressa em papel. Dadas as explicações, vamos ao assunto, os olhos como janelas da alma.

O corpo humano é uma máquina perfeita, nos dada como presente por uma grandiosa força, alguns denominam essa força de universo, para muitos é Deus, o importante é que esse corpo possibilita-nos executar inúmeras funções, interagindo com o meio no qual estamos. Como uma grande casa, nosso corpo é formado por diversos membros, cada um com função determinada e os olhos são os órgãos responsáveis pelo nosso contato visual com o mundo. Janelas de nossa alma.
Assim, os olhos nos possibilitam ver o que nossa alma nos direciona a enxergar. Por isso uma mesma realidade pode ter visões diferentes dependendo da alma de quem direciona os olhos. Saint Exupéry disse que “o essencial é invisível aos olhos, a gente vê  bem somente com o coração”.

Gostaria de completar o pensamento emitido por esse autor fantástico e dizer que o essencial é invisível aos olhos daqueles que não têm o órgão como janelas da alma, pois para muitos, os olhos veem exatamente o que a alma e o coração mostram. Alguns veem a rosa, outros os espinhos; obstáculos para alguns são impedimento, para outros,  oportunidades.

Visão por vários ângulos; acredito que um dos problemas atuais são os ângulos pelos quais estamos enxergando a vida, pouca essência, muita aparência. Como nossa visão não ultrapassa certas barreiras, sacrificamos as relações, nossos olhos não estão conseguindo funcionar como as janelas da alma.

Uma vez, só uma vez, conheci e convivi com um anjo e, acreditem, os olhos dele eram sim, as janelas de sua alma. Via tudo com a ingenuidade e pureza de uma criança, sobretudo amava, amava as pessoas e o mundo, mas amava a Deus sobre todas as coisas. Enxergava o melhor que a alma de cada um trazia, mesmo aceitando que como  humanos tínhamos defeitos, esse anjo sempre dizia e acreditava que dentre os defeitos o que sobrepunha nos seres humanos eram suas qualidades.

Esse anjo fez de seus olhos as janelas da alma, principalmente quando a retina se deslocou e o nervo óptico morreu. Durante doze anos, esse anjo teria vivido na escuridão se dependesse da claridade de fora para ver a luz, mas era anjo e seus olhos eram as janelas de sua alma. Por isso, onde todos veriam escuridão, o anjo continuou a ser luz, espalhando luminosidade por onde passava. Continuou a alimentar as criancinhas, a compartilhar uma palavra de conforto aos aflitos, enxergava jardins, via flores. Quando esse anjo retornou ao céu o mundo ficou mais escuro, mais frio.

Com esse anjo eu entendi a mensagem da oração de São Francisco: ”ser instrumento da paz, onde houver trevas que eu leve a luz.”

Com quais janelas estamos nos conectando com o mundo, com as pessoas? O que os nossos olhos têm enxergado nesse mundo? A quais lances estamos dando replay ou estamos focando? Observamos o melhor ou o pior das pessoas e das situações?

Quando eu era criança, no início de minhas leituras, li um livro intitulado Poliana,  no qual a personagem principal jogava um jogo chamado de “jogo do contente”.Praticando o mesmo, a personagem buscava ver sempre o melhor de qualquer situação. Uma parte que não saiu de minhas lembranças, mesmo tendo se passado mais de trinta anos foi quando Poliana ganhou um par de muletas no natal; inicialmente, a personagem ficou muito triste porque havia sonhado ganhar uma boneca, mas aos poucos, Poliana ficou feliz, uma vez que aquele presente lhe era inútil porque suas duas pernas eram saudáveis,  ela não precisava das muletas para andar.

Hoje, parece que vivemos o jogo do contente ao contrário, buscamos sempre uma mancha para nossos momentos felizes. Nossos olhos procuram sempre a imperfeição, a mácula, o defeito. Problemas com nosso espírito e nossa alma? Eu ouvia sempre uma expressão: ”desalmado”. Todas as vezes que alguém praticava um ato desumano, de maldade era chamado de desalmado. Há tempos não ouço esse adjetivo e lembrando-me dele agora não creio que os atos desumanos e de maldade tenham terminado. Ao contrário, acostumamos com a maldade humana, com a mesquinhez, o egoísmo, e tendo essas atitudes tão presentes em nosso cotidiano, convivemos com elas como se fossem normais.

Talvez estejamos nos tornando uma geração de desalmados, no sentido literal, criaturas sem alma, por isso olhos tão vazios, tão opacos, espelhos de almas vazias, como mortos vivos sobrevivemos a uma época na qual a compaixão, a comunhão estão sendo renegadas.

Que nossos olhos nos permitam enxergar as belezas que a vida nos oferece, a singeleza das flores, a energia e luminosidade do sol, a cumplicidade de um sorriso.

Principalmente que nossos olhos se abram e enfrentem outros olhos com a simplicidade de duas janelas que se abrem umas as outras na singeleza de um abraço. Que o encontro de duas pessoas se inicie pelo encontro dos olhares que nada temem, nada escondem para assim iniciar-se a comunhão e sintonia de almas e nos tornemos assim, uma cadeia, a verdadeira humanidade.

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.

                                                    
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