22/03/2019 às 17h28min - Atualizada em 22/03/2019 às 17h28min

No castelo do Barba Azul

Origens psíquicas da violência contra a mulher

Eneide Caetano
Há um aspecto inconsciente que ataca a mulher de dentro para fora, impelindo-a a agir destrutivamente em relação a si mesma, a outras mulheres e a seu ambiente, distorcendo seus ciclos naturais e seu próprio senso de identidade. Denominado por Jung de animus, personificação da energia masculina na psique da mulher, recebe características particulares de acordo com as experiências vividas, podendo ser positivo ou negativo.
 
No conto O Barba-azul, apresentado por Clarissa P. Estés em Mulheres que correm com os Lobos, 2018, é descrito o “predador natural da psique feminina”, manifestação do animus negativo, um elemento sabotador da psique das mulheres, frequentemente representado nos sonhos como um ladrão ou abusador (ou vários), que as ataca com julgamentos severos e inibidores e que pode destruí-las.

Uma manifestação peculiar desse conteúdo é a exigência de perfeição. Diariamente, a mulher é levada a se comparar com o ideal feminino ditado pelo modismo e os valores coletivos da época, o que gera uma profunda insatisfação, bem como a perda do vínculo com os aspectos básicos femininos que permitiriam um relacionamento saudável com o próprio corpo, com a maternidade e com a capacidade de entrega saudável na vivência sexual, acarretando diferentes graus de efeitos patológicos, tais como: desequilíbrios hormonais, disfunções sexuais, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, compulsões, distúrbios alimentares, inveja, ciúmes, competição, isolamento, controle excessivo sobre a própria vida e a dos outros, investindo a mulher em ódio contra si mesma.

A vítima do predador interno passa a se sentir sem confiança e energia, pois ele rouba a energia psíquica que deveria ser usada para o seu desenvolvimento saudável. Seus pensamentos são os piores possíveis: “não sou capaz, não tenho valor, não sou digna de amor e felicidade, qualquer pessoa faria aquilo melhor do que eu”.

A mulher enfeitiçada pelo “inimigo interno” frequentemente elege parceiros externos agressivos, com quem reproduz inconscientemente essa relação de violência. São homens influenciados por valores tradicionais, que tiveram educação muito rígida, criados em um ambiente com estereótipos extremamente machistas, incentivados a reprimirem seus traços de sensibilidade e gentileza inconsciente, com intuito de se transformarem em homens fortes e rudes.

Consideram o gênero feminino inferior e são pessoas repletas de preconceitos, o que os faz reagir de forma violenta.

Na resistência que muitas mulheres demonstram em abandonar esses parceiros violentos e abusadores, percebe-se a presença do animus negativo sempre a lhes dizer: “você não merece coisa melhor”, “vai ficar sozinha para sempre”, “vão dizer que você não tem competência para manter um homem”; e o desfecho: “ruim com ele, pior sem ele”.
 
Estés adverte que as mulheres ingênuas, como também aquelas com instintos debilitados podem ser facilmente seduzidas com “promessas de conforto, diversão, arte, inúmeros prazeres, ascensão social aos olhos da família, das colegas, ou de maior segurança, amor eterno ou sexo ardente”, tornando-se vítimas do predador que cai sobre elas antes que elas possam perceber sua presença, pois seus conhecimentos e suas percepções estão prejudicados. Desse modo a ameaça do homem sinistro serve como advertência para todas nós - “se você não prestar atenção aos seus tesouros, eles lhe serão roubados”. (Estés, 2018)

Felizmente, o aspecto masculino interno da mulher também contém um lado positivo: capacidade de discriminação, autoafirmação, habilidade de perceber e julgar com distanciamento e imparcialidade, raciocínio objetivo, claro e lógico. E para que ele seja um aliado, a mulher deve identificar a origem dos pensamentos negativos, recolher as projeções colocadas nos homens com quem se relaciona, anulando os superpoderes neles ilusoriamente percebidos. O animus positivo auxilia a mulher em seu desenvolvimento e lhe traz a energia para a ação.
Decorre disso que o próprio animus presente na psique da mulher, porém em seu aspecto positivo, é quem pode lhe ofertar as soluções que enfraquecem o seu medo, fornecendo quantidades de adrenalina na hora certa e trazendo ao nível do consciente a chave psíquica, a capacidade de fazer qualquer pergunta a respeito de nós mesmas, da nossa família, dos nossos projetos e da vida como um todo.

Assim, a solução, segundo Estés é: prestar atenção à intuição, à voz interior positiva; fazer perguntas; ser curiosa; ver e ouvir melhor para então agir com base no que é verdadeiro, de modo que a mulher possa interagir com o masculino inconsciente, aprimorado pela assimilação dos aspectos positivos, promovendo a integração do animus à sua consciência feminina, que favorecerá a união da matéria com o espírito, essencial para a integridade física e psicológica da mulher.
 
Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG 
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
30 anos de experiência profissional
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