10/07/2019 às 09h08min - Atualizada em 10/07/2019 às 09h08min

Coração

Quando a vida pesa e as perdas superam os ganhos, algumas pessoas optam por trocar o lado racional e lógico do cérebro pelas sensações do coração. Resolvi abrir um espaço nas minhas janelas para falar de pessoas que já não vivem a mesma realidade que nós, mas ainda convivem conosco, as pessoas que têm Alzheimer.

Temos muita dificuldade em conviver com o outro, com o diferente, eu aprendi e sinto-me muito a vontade para conviver com essas pessoas, pois entendo que elas possuem uma liberdade que a gente não tem, viver de acordo com o que sentem no coração. Elas são muito mais livres que nós que nos julgamos saudáveis.
Minha avó, eu tenho avó, uma dádiva, está com Alzheimer e, conversando com ela, posso viver todas as aventuras que desejo, mas não poderia  se vivesse apenas na normalidade humana. Com a minha avó ganhei muito do que seriam perdas na normalidade: voltei a conviver com as histórias do meu avô, visitar minha mãe e minha tia. Catamos grãos de café e curamos feijão, mesmo não estando em lavouras e fazendo colheitas.

Um coração grandioso e forte, mesmo não bombardeando o sangue com maestria  pelo corpo frágil e já quase sem forças. O cérebro nem sempre reconhece o lugar no qual o corpo se encontra, mas não esquece nenhum dos seus, pode até trocar os nomes, mas todos estão nesse enorme coração: os filhos, os netos, os bisnetos e tataranetos. Um coração que transformou a avó em mãe quando nos tornamos órfãos.
Essa minha avó é uma rocha que aos olhos sem foco parece vidro e quando me pego pensando quando começou o Alzheimer, percebo que foi mais uma estratégia dela de conviver com as dores da perda: perder a força física, o companheiro de uma vida inteira, as filhas que gerou. Minha avó é mesmo muito esperta. Quando éramos crianças, ficávamos a beira do fogão a lenha para comer o tutu de feijão e a rapa do arroz, era uma cozinheira espetacular. Aos domingos tínhamos na visita matinal que  comer um pedaço de frango frito, delícias que só minha avó era capaz de fazer.

Hoje essas lembranças foram substituídas pela chuva que não cai, pela casa cheia, mesmo estando vazia, mas o ,  a Lurdinha não pode deixar de oferecer. Café com biscoito, café com broa, apenas café, mas sempre na casa da avó, da minha avó. A Lurdinha é o anjo escolhido para cuidar de nossa jóia mais preciosa, tudo foge da realidade, mas a Lurdinha precisa estar lá. Acho que é o porto seguro da minha avó, aquela que a faz voltar por mais que o cérebro queira fugir.

Fico pensando em como deve ser triste para uma pessoa não ter avó ou perder o privilégio de conviver com uma. Algumas avós, hoje, querem ser modernas, antenadas, jovens e com isso a nova geração está perdendo a oportunidade de terem uma avó, típica avó, como a Dona Benta, do Sítio do Pica-Pau amarelo. Algumas avós modernas querem ser antenadas, viver aventuras, quem sabe até sair para as baladas com os netos, fazerem com eles  viagens.

Eu tenho o privilégio de ter uma típica avó, aquela que não aceitava que os filhos fossem para longe dela, que se assustava com a modernidade na qual os netos eram criados, que gostava  de saber dos móveis novos que eram comprados nas casas dos filhos.Tenho me deparado com  muitos adolescentes depressivos, uma das causas pode ser a falta da típica avó.Rígida,  mas carinhosa. Firme , mas amável. Minha avó foi tudo isso e hoje é asas da minha imaginação.

Talvez nossas avós sejam a janela mais íntima de cada um de nós, aquela que nos mostra nossas raízes, nossa essência, de onde, de fato, viemos;  através dessa janela nos vemos como realmente somos, sem os disfarces da profissão, da posição social, dos estereótipos.

Convivo com algumas outras pessoas que têm Alzheimer, repetem as mesmas histórias várias vezes, fazem sempre as mesmas comidas, contam sempre as mesmas histórias, mas possuem uma grandeza e sabedoria que são difíceis até àqueles seres mais lúcidos.

Algumas pessoas sentem tristeza ou até mesmo infelicidade quando um de seus entes são diagnosticados com a doença e como ela evolui progressivamente. A  tristeza e/ou infelicidade não podem ser sentimentos transmitidos a essas pessoas. Entremos no mundo e na realidade delas; construamos histórias com elas, sejamos parte do mundo delas.

Aproveitemos o que pode ser considerado irrealidade delas para sermos mais insanos e mais felizes. Abramos as janelas para vermos as violetas e os girassóis, mesmo que na realidade física, não estejam lá.

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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