17/07/2019 às 14h04min - Atualizada em 17/07/2019 às 14h04min

Las ventanas

O Caminito é um dos bairros turísticos de Buenos Aires. Bela e europeia, Buenos Aires. Diferente da arquitetura sóbria do restante da cidade, o Caminito é uma explosão de cores. Famoso bairro do Boca, quem gosta ou entende de futebol sabe  do que estou falando, Boca Júniors, la bombonera. Mas eu não vou usar essa crônica para falar de futebol. Apesar de ser esse esporte uma das paixões de minha vida e os times argentinos, nossos adversários preferidos. Quero falar do Caminito.

O Caminito é um pequeno bairro que surgiu aproximadamente entre 1830 e 1853, por imigrantes, na maioria italianos, que utilizaram chapa de metal canelado e sobras de tintas trazidos pelos marinheiros para fazerem suas construções, daí as casas serem pintadas com cores vibrantes e variadas e, algumas vezes nem toda da mesma cor.

Os turistas que transitam pelo Caminito, muitas vezes, percebem apenas o aspecto romântico do lugar. Homens e mulheres convidando os transeuntes para um tango, como apenas os argentinos sabem dançar, as cores vivas do lugar, mas essa é apenas a face romantizada do lugar que busca sobreviver como parte de uma metrópole, mas com a pobreza e miséria dos subúrbios.

O Caminito não é apenas um cenário, é real, onde vivem pessoas que tentam se manter através do pouco que o turismo lhes proporciona. Pobre e triste Caminito que busca, através da extravagância das cores,  esconder suas mazelas e tristezas.

Nessas janelas que durante o dia se veem  cores, músicas e movimento de turistas de diversas partes do mundo, à noite o cenário é outro, talvez o verdadeiro Caminito só possa ser visto à noite.

As dançarinas e dançarinos de tango desvencilham-se das fantasias, pés cansados e corpos doloridos, colocam-se a contar as férias do dia. O sorriso cede lugar ao cansaço e a melancolia. Por hoje deu. Que amanhã clareie com novos turistas e um pouco mais de dinheiro, mas nesse restante de noite, que possam ser eles mesmos, sem pinturas e máscaras.

Antes de ir para casa, uma taça de vinho para relaxar o corpo e a alma. Todos os dias, mas não seria para sempre assim. Aquele dinheiro suado, conseguido durante as grandes temporadas de turismo, os ajudaria a ter dias melhores, seria investimento em futuros mais grandiosos.

Quantas vezes somos todos assim. Sacrificamos boa parte de nossas vidas em ações que nos garantam futuros melhores. Afinal,  o que é o futuro? Uma grande caixa com um belíssimo presente? Presente, seria esse tempo a única e verdadeira realidade, da qual abrimos mão para uma realidade que nem mesmo sabemos existir?

Quantos de nós estamos sacrificando as vidas, por não fazer no presente o que de fato nos realiza? A diferença não está na dança do tango, mas sim,  no objetivo que temos com ela. Dois amantes dançando tango é um ritual de acasalamento entre dois corpos sintonizados e apaixonados, uma dança de tango com um desconhecido pelo Caminito ou qualquer uma das ruas de Buenos Aires é apenas uma representação de fachada. Viver de fachada, de representações, fazendo o que esperam que façamos e não o que nos realiza como seres humanos. Desde a escolha da roupa, da casa, do carro, do companheiro, do corpo, sempre em função de não decepcionar o que esperam de nós.

E nós? Estamos satisfeitos e realizados com nós mesmos, com o nosso presente?O Caminito está em Buenos Aires, mas não é parte da cidade. Nele não estão a  ostentação da arquitetura argentina, nem o glamour dos cafés que fazem o turista sentir-se na Europa. Talvez  hoje, não estejam nele, nem mesmo os sonhadores marinheiros que vieram de seus países em busca de uma vida melhor. O Caminito é apenas uma representação, assim como os dançarinos de tango que convidam os turistas para uma dança.

Numa tradução literal, Caminito seria  um pequeno caminho. Para onde? Em qual direção? Para muitos, nossa vida nesse espaço terrestre também é transitória, um caminho, caminito. Qual direção estamos tomando? Para onde nos dirigimos? Las ventanas, as janelas de nossa vida, abrem-se para onde?

Que consigamos ser a alegria das cores do Caminito sem sermos  apenas uma fachada. Vivamos o presente, nosso presente e que las ventanas, nossas janelas, interajam com o mundo de forma íntima e harmoniosa.

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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