29/07/2019 às 14h18min - Atualizada em 29/07/2019 às 14h18min

A ansiedade como manifestação dos complexos

​Hoje em dia todo mundo sabe que as pessoas "têm complexos". Mas o que não é bem conhecido e, embora teoricamente seja de maior importância, é que os complexos podem "ter-nos”. (Jung,1934)

          A teoria dos complexos de Jung esclarece sobre como os acontecimentos vividos no passado - padrões típicos de reações desenvolvidos a partir das experiências pessoais de cada pessoa - se tornam dominantes na psique adulta gerando ansiedade.

          Tudo o que afeta uma pessoa pode ser descrito como um complexo, os quais são de vários tipos: materno, paterno, inferioridade, superioridade, poder etc., a lista não tem fim. Formados por acontecimentos da infância, dificuldades, repressões, condicionamentos, interações e padrões familiares, os complexos agem como "personalidades autônomas" dentro da personalidade total. Para descobrir se estamos reagindo a partir de um complexo, precisamos reconhecer os afetos que nos influenciam e nos conduzem às nossas atitudes habituais.
          Segundo Jung, “um ‘complexo afetivo’ [...]é a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia [...]se comporta, na esfera do consciente, como um corpo estranho, animado de vida própria. Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original”.
          Os complexos ao dominarem a consciência, tornam unilaterais as atitudes do Ego através de pensamentos obsessivos, visões, atos falhos, esquecimentos, somatizações, compulsões, falhas de memória, irritabilidade, prejudicando a adaptação do indivíduo à realidade exterior, gerando ansiedade e angústia. Jung elucida que: [...]os complexos [...] põem em nossos lábios justamente a palavra errada; fazem-nos esquecer o nome da pessoa que estamos para apresentar; provocam-nos uma necessidade invencível de tossir, precisamente no momento em que estamos no mais belo pianíssimo do concerto; fazem tropeçar ruidosamente na cadeira o retardatário que quer passar despercebido; num enterro, mandam-nos congratular-nos com os parentes enlutados, em vez de apresentar-lhes condolências; [...] .São os personagens de nossos sonhos diante dos quais nada podemos fazer [...].

          A ansiedade surge diante do “despreparo” emocional frente à vida e gera medo e insegurança que podem se revelar através de relações de dependência (seja dos pais, dos amigos, parceiros, etc.). A ansiedade se manifesta quando o indivíduo tem que se virar sozinho, onde se vê em situações conflitantes e não possui referências de enfrentamento, neste caso, algum complexo se constela. Assim sendo, o indivíduo perde a liberdade se tornando escravo de sua aflição ou do medo, e muitas vezes, parte para fugas como as dependências de todos os tipos, álcool, drogas, compulsões alimentares, sexuais, vícios em jogos, redes sociais, etc.

          Para reduzirmos o poder indesejado de um complexo, não basta apenas sabermos os "porquês" do passado. Muitas vezes, apesar de já termos adquirido uma boa informação sobre eles, ainda continuam a nos condicionar, portanto, para irmos contra a tirania de um complexo, é necessário nos ajustarmos ao potencial humano criativo, imaginativo, restaurador, com coragem e humildade para questionarmos nossas “verdades” e avaliações da realidade. Abrir mão de sermos "os donos da verdade" (que é como nos sentimos quando estamos sob o controle de um complexo).

          A dor e sofrimento ansioso que seguem a constelação de um complexo negativo são, acima de tudo, verdadeiros convites à mudança, são grandes oportunidades de crescimento.

         O que pode salvar este indivíduo é o fortalecimento, descer ao mundo interior pessoal, enfrentado suas próprias questões. Descobrir sua “equação pessoal” e não se desviar das metas objetivas e espirituais. Deve abandonar as hesitações, escolhendo, assumindo riscos e acreditando no sentido maior da própria existência. O indivíduo precisa manter a atenção constantemente atraída para dentro, para a descoberta de uma nova percepção da realidade, ter acesso à vida criativa, vencer frustações e desilusões, desenvolver a agressividade natural no enfrentamento dos problemas e acima de tudo, desenvolver a “força arquetípica” interior!                                                                            
          Em análise Junguiana, essa força é fomentada pela personalidade firme do analista que se confrontou consigo mesmo e com o arquétipo do “curador ferido” em seus anos de análise. Esta referência colabora para que o eu do analisando consiga ser persuadido a sair do seu esconderijo e possa confiar no mundo, nos movimentos de confrontação e compaixão, guiados no trabalho psicoterapêutico. O papel desafiador do analista é de permanecer firme e recomendar constantemente à pessoa, que será preciso suportar as seduções externas, dizer não às tentações e controlar os impulsos e desejos momentâneos, para que se transforme, a fim de trilhar o caminho que leva ao amor próprio e ao encontro do sagrado, se fazendo merecedor da integração de sua personalidade.

 
Eneide Caetano
Analista Junguiana - C.G.Jung-MG - Associação Junguiana do Brasil - International    Association for Analytical Psychology
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (2017/2020)
-Especialista em Sexualidade Humana e Educação Sexual
-Psicóloga Perita Examinador de Trânsito    

                                                                                                     
Referências:
 
http://semeandojung.blogspot.com/2013/09/libertacao-os-complexos-afetivos-e.html
Jung, Carl Gustav. A Natureza da Psique, OC VIII/2, 2000.Vozes, Petrópolis, RJ
 
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