31/07/2019 às 09h57min - Atualizada em 31/07/2019 às 09h57min

Les fènêtres

Paris é indubitavelmente uma das cidades mais lindas do mundo, eu iria dizer a cidade mais linda do mundo, mas para não parecer arrogância, direi uma das cidades. Paris tem tudo: beleza, leveza, paixão, romance, por cada parte, cada lugar, circula uma magia difícil de encontrar em outras partes do mundo,  e imponente sobre todos está a dama de ferro, torre Eiffel. Por qualquer lugar que você circule, mesmo de longe, lá está ela.

Paris, cidade das luzes, não apenas no sentido físico das belas iluminações da cidade, mas da luminosidade, do brilho que existe em cada um de nós. Paris inspira o sorriso, e por maiores que sejam as dificuldades, ali as pessoas se sentem felizes. O turista se sente um sortudo, o morador nativo, um privilegiado, de forma que quando se está em Paris, os problemas particulares ou sociais se tornam menores que no restante do mundo.

Seria Paris um paraíso terrestre? Não, definitivamente não. Paris tem problemas como todas as grandes metrópoles do mundo: problemas políticos, sociais, econômicos, Problemas provenientes de aspectos internos e outros provenientes da enorme quantidade de imigrantes que invadiram a cidade em busca de uma vida melhor: argelianos, marroquinos, senegaleses e demais oriundos de antigas colônias francesas na África e outros países.Somados a esses imigrantes legais ou não, Paris é uma das cidades mais visitadas do mundo, ou seja, a enormidade de turistas transforma essa cidade num espaço transcontinental.

E daí? O que poderia ter como  consequência   um espaço impessoal, sem identidade, é o contrário, quem chega a Paris, transforma-se em parisiense, absorve o calor, a alegria, a sinergia do lugar. É infantil, mas Paris rima com feliz.

Quanto estamos sendo felizes em durabilidade e intensidade? Sempre deixamos para depois a nossa felicidade ou aproveitamos os pequenos instantes e transformamos em grandes momentos? Somos ou estamos felizes? Estar é transitório, ser é permanente. Apostamos na transitoriedade ou na permanência?

Dessa janela observo um casal. Marido e mulher? Namorados? Não sei. O que atrai minha atenção é a forma como se olham, se veem, é óbvio que são especiais um para o outro; é possível sentir o calor dos olhares, a química dos corpos. Alguns podem chamar de paixão, outros de amor, talvez mistura de amor e paixão.

Não era apenas a magia do lugar, era o mistério do relacionamento. O riso entre eles era fácil, simples, não dessas gargalhadas que atraem outros olhares, mas o riso silencioso daqueles que preferem o segredo e a discrição de um sentimento que pertencia apenas a eles. Não era necessário gritar para o mundo inteiro ouvir.

Hodiernamente, quis usar essa palavra, porque descobri que é moda do momento, vemos muita exposição dos relacionamentos em redes sociais. As pessoas precisam mostrar que estão juntas, estão felizes, estão bem. Nessa exposição exacerbada, vemos uma superficialidade. Sentimentos que não tocam a alma, relações que não completam as pessoas. O que se espera quando procuramos um companheiro? O frenesi da paixão, a calmaria e a completude do amor?

Será que nessa contemporaneidade fluida e superficial, ainda sabemos o que é o amor? Nessas janelas, a cena do casal enamorado, que se completa e se basta não é mais tão normal. Casais precisam cada dia mais da companhia dos aparelhos eletrônicos, das festas e resenhas sociais e fotos e mais fotos para publicação nas redes sociais. Falta intimidade, palavra esquecida nos dias atuais, por isso, talvez o vazio existencial que sentem mesmo aqueles que estão sempre rodeados de pessoas.

Não é necessário estar num lugar apaixonante, como Paris, é urgente estarmos sintonizados com nós mesmos, com nossos desejos. Apaixonar e amar a vida e redescobrir o significado real da palavra amor.

Quando era criança e depois adolescente, imaginava como as pessoas descobriam que aquele era o amor de suas vidas, qual era o sinal para fazerem uma escolha tão importante e decisiva. Aos poucos fui percebendo que os critérios para a escolha do companheiro ou companheira, nem sempre incluíam o amor, às vezes, eram as aparências, beleza física, contratos financeiros. O meu mundo se tornou menos encantado com essas descobertas, alguns me considerarão uma romântica, quase incurável.

Qual critério você utiliza ou utilizou para escolher seu companheiro ou companheira? É alguém que ainda faz suas mãos suarem, seu coração acelerar, sua boca ficar seca? Ou é alguém que faz você rir sozinho com uma lembrança ou desejar ficarem  juntinhos numa intimidade que não admite nem mesmo palavras?

Não precisamos estar em Paris para abrirmos as janelas para sentimentos verdadeiros como o amor que nos une a alguém que a vida nos preparou para completar nossa essência. Não precisamos ser crianças ou adolescentes para nos encantarmos com alguém que nos faz melhores, mais felizes pelo fato de estarem ao nosso lado. O amor é uma das poucas coisas que nos faz querer andar  de mãos dadas, dormir de conchinha, suspirar de saudade quando estamos longe apenas algumas  horas.

Como a cidade de Paris não é o paraíso terrestre nenhum amor é ou terá condições  perfeitas, mas o amor é por si só perfeito. O amor nos faz, quando amamos somos  seres humanos melhores. Amar um companheiro ou uma companheira não é a única condição para fazer um ser humano feliz, mas, nunca o amor pode ser a causa da infelicidade de alguém.

Se você possui um companheiro ou companheira, reflita quanto bem um faz ao outro, quanta alegria um proporciona ao outro, quanto vocês gostam de estarem juntos, partilhando coisas que seriam banais ou supérfluas se não fossem feitas juntos: uma comida, um filme, uma música, um passeio.

Não desperdice seu tempo fingindo amor. Paris não é apenas um lugar é uma sensação, um sentimento. Que aquele olhar iluminado do casal, visto dessa janela simbolize o encontro de duas almas que se procuram e se completam e que cada um de nós vivencie esse amor nas nossas relações. Ça c ‘est Paris, ou c ‘est  l’amour. Que o amor nos torne iluminados e felizes. Muitas luzes de amor em nossas janelas.

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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