07/08/2019 às 09h53min - Atualizada em 07/08/2019 às 09h53min

Le finestre

Quando Firenze se apresenta a qualquer turista a primeira coisa que impressiona são as construções em pedra. É como se você, de repente, entrasse pelas folhas dos livros de história e voltasse no tempo. Anos e anos de história e civilização.

Mas das janelas dessa imponente cidade eu vejo um casal sentado na praça e chama a minha atenção a idade dos mesmos, já não são tão jovens mais, no entanto, estão ali, sentados, enamorados. Juntos, sabe-se lá há quanto tempo.

Esse é um fato que me impressiona, relacionamentos duradouros. Homens e mulheres que vivem a tanto tempo juntos que tornaram-se aquele juramento do altar, já não são mais dois, mas apenas uma só carne.Já conheci casais que viveram tantos anos juntos que quando um morreu passados quinze dias, num outro caso,  oito dias, o outro também se foi.

Algumas pessoas dirão que, antigamente, as coisas eram muito diferentes, o casamento durava porque a mulher aceitava todas as provações do marido, chifres, maus tratos, etc. e viviam juntos porque não tinham a opção de separarem-se. Como se hoje, essas coisas não fossem toleradas num relacionamento. Analisando o assunto, não sei se é tão simples assim, uma resposta.

Quando olho para aquelas construções de pedra que sobrevivem aos anos e aquele casal sentado naquela praça, sem querer, uma analogia passa pela minha cabeça: solidez.Construções e relacionamentos sólidos seriam heranças de uma época que não existe mais?

Atualmente pergunta-se você está casado, demonstrando que esse é um estado transitório. Você já passou por quantos casamentos? Perguntas feitas de forma natural, mas que demonstram a superficialidade de uma época. Edgar Morin, diz que atualmente tudo o que é sólido desmancha no ar, o que, inicialmente, parece um paradoxo, traduz uma época em sua essência.

Algumas vezes vemos casais de quatorze, quinze anos de idade tentando iniciar uma família, outras vezes, casais de trinta e quarenta anos de idade, tentando construir uma nova família. Em todas essas situações o lugar comum é a fragilidade. Quando indagados sobre: vão se casar? A defensiva os faz responder que irão tentar.

Tentar, vocábulo que denota a fragilidade de nossa época. Tentar significa que não há garantias. Antigamente ninguém casava para tentar, isso fazia com que as incertezas não tivessem lugar. Os filhos cresciam sobre a solidez de uma família. Bem no início da minha rua tinha um casal que também simbolizava a solidez de uma época. Ficavam juntinhos,  tomando sol todas as manhãs e mesmo quando sussurravam de forma ranzinza um para o outro, sentia-se amor.

Eu sempre dizia que desejava um relacionamento assim, que depois que tivéssemos nossos filhos, eles crescessem e fossem embora, eu e meu companheiro nos bastássemos, como aquele casal do início da minha rua.

Não é fácil dividir a vida, ou seja, viver a dois. Escutar o outro, consultar o outro, partilhar todos os detalhes da vida com o outro. Fazer isso sem perder a individualidade de cada um é quase impossível. Dividir contas, sentimentos, espaços, a cama. Tudo bem, que alguns casais modernos durmam em camas separadas, mas a cama  é o menor dos problemas.

Algumas vezes, imagino que a solidez exigida num relacionamento e as exigências e abdicações necessárias para que o relacionamento dê certo faz com que essa não seja uma tarefa para todos.Lya Luft tem um livro intitulado Perdas e ganhos, no qual ela nos faz refletir as perspectivas da vida.

Nada é perfeito, todas as nossas escolhas trazem perdas e ganhos. O que um casal desejava quando se casaram? O que desejam quando se divorciam?Observo casais que se divorciam e se renovam como pessoas, mas também observo outros divórcios nos quais os casais murcham. Avaliar as perdas e ganhos em cada situação é crucial. Manter o respeito pela pessoa do outro em qualquer uma das opções é essencial.

Florença mostra que para conservar a solidez de uma época, várias coisas precisaram ser deixadas de lado. Casas antigas sem as comodidades da modernidade, tubos de esgoto entupidos, sistemas de calefação inapropriados, mas o preço vale a pena, assim devem ser nossas escolhas nos relacionamentos. Às vezes o sexo não vai ser tão fenomenal, o romantismo pode parecer piegas, mas a solidez, a certeza de que os dois estarão ali, sempre, juntos é a rocha que faz todo o resto ser poroso. Esperto era Vinicius que na dúvida disse que fosse eterno enquanto dure.

Firenze, Florença, construções em pedra, relacionamentos sólidos, que bom seria se todos nós, na velhice, tivéssemos a companhia de um amor da vida inteira, nos acompanhando na janela.

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.

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