13/08/2019 às 16h25min - Atualizada em 13/08/2019 às 16h25min

A Influência do pai no destino dos filhos

“Freud chamou a atenção para o fato de o relacionamento afetivo da criança como os pais e, sobretudo, com o pai, ser da maior importância para o conteúdo de uma neurose futura. O relacionamento com os pais é, de fato, o canal infantil por excelência por onde flui de volta a libido ao encontrar obstáculos na vida posterior [...]Sempre é assim na vida humana: quando voltamos para trás diante de um obstáculo grande demais, de uma decepção muito ameaçadora ou do risco de uma decisão muito importante, então a energia acumulada para resolver a tarefa flui de volta e torna a encher os antigos leitos do passado [...]. O relacionamento com o pai e a mãe.”  (Jung, 1909/1989)

A criança possui um princípio herdado favorável à futura influência dos pais sobre ela. Assim, observa-se que por trás do pai existe o arquétipo do pai, no qual habita o segredo do poder paterno. A representação do pai faz parte do acervo presente na psique dos seres humanos, mas não é essencialmente originada em sua experiência pessoal de vida; ela atua como um amplificador, que aumenta os efeitos que emanam do pai pessoal. (Jung 1909/1989)

Jung confere aos pais uma participação essencial na vida e estruturação da personalidade dos filhos e o poder de guiar ou não a criança a um destino mais elevado. Mesmo após a infância, durante o desenvolvimento e na vida adulta, as imagens parentais continuam a influenciar inconscientemente a consciência individual.

Jung elucida que “O homem “possui” muitas coisas que ele nunca adquiriu, mas herdou dos antepassados. Não nasceu tabula rasa, apenas nasceu inconsciente. Traz consigo sistemas organizados e que estão prontos a funcionar numa forma especificamente humana; e isto ele deve a milhões de anos de desenvolvimento humano. Estes sistemas herdados correspondem às situações humanas que existiram desde os primórdios: juventude e velhice, nascimento e morte, filhos e filhas, pais e mães, acasalamentos, etc. Apenas a consciência individual experimenta estas coisas pela primeira vez, mas não o sistema corporal e o inconsciente. [...] Denominei este modelo instintivo, congênito e preexistente ... de arquétipo. [...] há muitos que se identificam com o arquétipo, [...] de certa forma, (está) “possuído” por sua pré-formação especificamente humana, é mantido preso e fascinado por ela e exerce a mesma influência sobre outros sem estar consciente do que está fazendo. O perigo (dos pais) está exatamente nesta identidade inconsciente com o arquétipo; não apenas exerce influência dominadora sobre a criança por meio da sugestão, mas também causa a mesma inconsciência na criança, de modo que ela sucumbe à influência de fora não podendo concomitantemente fazer oposição de dentro. Quanto mais o pai se identificar com o arquétipo, tanto mais inconsciente, irresponsável e até mesmo psicótico ele será.” (Jung, 1909/1989)       

O pai é símbolo da masculinidade para os filhos, no entanto, quando ele se torna temível, as crianças tendem a permanecer inconscientes e infantis e se apegarem a mãe. Este aspecto pode causar vários transtornos, especialmente se a mãe superproteger os filhos, sufocando também, o desabrochar da individualidade. Essas “negações” podem ocasionar ao indivíduo, conflitos na identidade de gênero, na realização da sexualidade, sentimentos de inadequação, desvalorização de si, paralisia e impotência, como também, as compulsões e vícios de todos os tipos. Quando a criança experimenta descuidos, rejeição, falta de cuidado e carinho, sente ansiedade e insegurança, e é mais propensa a ser hostil e agressiva, tem mais dificuldade em formar relações seguras e de confiança com os outros.

No transcorrer da vida, à medida em que a consciência se torna capaz de compreender o mundo, a importância da personalidade parental atrofia e a figura autoritária do pai retrocede ao plano de fundo e se decompõe numa personalidade mais restrita e humana. “Por outro lado, a imagem do pai vai ocupando todas as dimensões possíveis. No lugar do pai surgiu a sociedade dos homens e no lugar da mãe veio a família.  [...] o que tomou o lugar deles não é simples substituição, mas uma realidade já vinculada aos pais e que se impôs à psique da criança através da imagem primitiva deles. A mãe que providencia calor, proteção e alimento é também a lareira, a caverna ou cabana [...] O pai é a guerra e a arma, a causa de todas as mudanças. [...] É a imagem de todas as forças elementares, benéficas ou prejudiciais.” (C G Jung, 1927/2013)

Constata-se que o amor do pai é decisivo para o desenvolvimento e a formação do caráter dos filhos. Ser pai é estar presente em atos de amor e palavras concretos, fornecendo aos filhos suas qualidades positivas derivadas do princípio masculino intrínseco ao seu ser e que contribuem para a saúde física e o desenvolvimento espiritual. O pai com sua função de organizar, move o filho em direção a uma personalidade autoconfiante e o torna capaz da realização do potencial maior inerente a todo ser humano!

Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito
30 anos de experiência profissional
 
FONTE: 
Carl Gustav Jung - FREUD E A PSICANÁLISE, OC vol. IV, 1909/1989
______________   CIVILIZAÇÃO EM TRANSIÇÃO. OC X/3, 1927/2013

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