14/08/2019 às 11h30min - Atualizada em 14/08/2019 às 11h30min

Basculhante

Entre tantas janelas, essa me é especial, pois dela tenho relação afetiva com tudo o que vejo, amores de uma vida. Dessa janela vejo uma cidadezinha, não uma cidadezinha qualquer, como poetizou Drummond, mas uma cidadezinha toda especial, porque é a minha cidadezinha, Santa Rita de Minas.

Provavelmente, diferente de muitas janelas que abri, poucos saberão de que cidade se trata, dirão até que não existiria o porquê de fazer uma crônica sobre uma cidade tão comum, para alguns insignificante, mas dessa janela vejo muito mais que todas as janelas do mundo poderiam nos mostrar, histórias simples, de pessoas comuns, como todos nós somos e ao mesmo tempo com particularidades que nos faz sermos todos especiais.

Dessa janela quero falar sobre a singeleza do ser humano: aparentemente uma pracinha qualquer, com uma igreja no centro como marca do poder da igreja católica e ao redor dela, algumas construções que por tempos eram importantes: uma escola, um coreto, um correio, ah! jO correio da Dona Delma.

Algumas coisas já mudaram, a cidade evoluiu com a emancipação e na praça resistiram a igreja e a escola, o coreto desapareceu e o correio perdeu um lugar fixo.Mas apenas algumas coisas mudaram, a essência da singeleza permanece.

Penso que assim são as pessoas, nascemos num meio e a educação que nos é dada nos molda em boa parte do que seremos por toda vida, por mais que se mudem as situações. Ser é muito mais que estar e tornar-se não tira a essência do ser, poderemos nos tornar profissionais de áreas diversas, mas nossa essência é o que nos faz ser.

Antigamente as cidades menores traziam particularidades nas pessoas, o que diferenciava essas daquelas que habitavam as chamadas cidades grandes, a globalização mudou essa  conjuntura e o  comportamento das  pessoas é alterado pelo mundo global, independente do lugar em que elas habitem. Assim a singeleza e a leveza encontram-se no ser.

Dessa janela vi e vejo pessoas que se conhecem uma vida inteira, sabem as necessidades e habilidades de cada um e se buscam e se ajudam todos os dias: o leiteiro e o padeiro entregam o leite e o pão na porta, os aposentados se sentam nas calçadas, compartilhando as vivências e fugindo da solidão.Pratos culinários são divididos e a noção de família envolve toda uma rua, não apenas uma casa.

Como é bom perder parte da intimidade quando isso significa compartilhar. Apenas as pessoas que habitam as pequenas cidades sabem do amor que envolve o cotidiano de cada um de nós. Se a janela não for aberta hora de sempre, ou se estiver aberta na hora errada são sinais de alerta. Como você está? Pergunta feita de forma sincera e dependendo da resposta um convite para um café e um desabafo.

Restrições, superações, assim é a vida de quem mora nas cidadezinhas, cada um tem sua rotina, seu espaço e o amor permeia as relações Assim é importante salientar a singeleza e os amores desses lugares que sustentam uma história particular.

Quero ainda fazer um grande registro de tudo o que Santa Rita nos deu e nos dá: a beleza da mula do senhor Erpídio, as folhinhas e o rapé do senhor Armindo, as recitações das placas de carro do Piti, nossa querida dona Fia e o Sebastião Lau, os inúmeros afilhados da madrinha Celina, o presépio e o café da dona Minega, os causos do Monsenhor Rocha. Quero registrar para que quando nossas memórias não derem mais conta de guardar, os escritos nos relembrem da grandeza existente na singeleza desse lugar.

Muitas vezes nos esquecemos que a felicidade reside nos pequenos detalhes e como quantos de nós fomos e somos felizes por pertencer a algum lugar. Essa sensação de pertencimento só é possível àqueles que entendem como raízes são importantes. Ir e querer voltar e ficar, isso é pertencer.

Alguns talvez não entendam a grandeza de andar pela rua e ser cumprimentado pelo nome, não sendo apenas mais um na multidão. Abraçar as pessoas e sentir-se acolhida no abraço, coisas de cidade pequena, coisas que são de tamanho valor que não têm preço.

Pode ser que a visão não seja tão ampla, mas a imensidão do que é vivido é imensurável, meu coração não é maior que o mundo, mas nele cabe toda minha Santa Rita de Minas.

Como você se sente em relação ao espaço que vive? Pertencimento ou não? Como é sua relação com seus vizinhos? Você conhece as pessoas de sua rua?Se sua resposta for negativa para duas ou mais dessas perguntas, independente do número de habitantes e da área de ocupação de sua cidade, você não é morador de uma cidade pequena, desconhecendo como é saboroso viver num lugar no qual sua presença é notada e sua ausência sentida. Mude para uma cidadezinha e desfrute de mais uma arte de ser feliz.Como é bom abrir a janela da minha vida para todos vocês.


Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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