22/08/2019 às 10h54min - Atualizada em 22/08/2019 às 10h54min

Importância do Mito de Eros e Psiquê para a Psicologia

“Psique, em grego, significa tanto borboleta como alma. Não há alegoria mais notável e bela da imortalidade da alma do que a borboleta, que, depois de estender as asas, do túmulo em que se achava, depois de uma vida mesquinha e rastejante como lagarta, flutua na brisa do dia e torna-se um dos mais belos e delicados aspectos da primavera. Psique é, portanto, a alma humana, purificada pelos sofrimentos e infortúnios, e preparada, assim, para gozar a pura e verdadeira felicidade.” (BULFINCH, 2001)


No dia 27/08 é comemorado o dia do psicólogo no Brasil. A profissão foi regulamentada no país nessa data, no ano de 1962. A psicoterapia é uma das modalidades de trabalho psicológico exercida pela maior parte dos profissionais desta área; no entanto, para apreendermos o que se passa no íntimo de cada um de nós, isto é, nos aproximarmos da psique e de seus desígnios, necessitamos retornar às nossas raízes greco-romanas nos ensinamentos do mito de Eros e Psiquê.
O mito em questão revela não apenas os vários aspectos do relacionamento afetivo, mas também representa a própria essência da relação analítica - psicoterapia em busca de Eros (amor), em busca da alma (psique) - por ser um mito essencial da criatividade psicológica e transformação da personalidade, é também o mito da análise.
        Eros (deus do amor) e Psiquê (personificação da alma) podem ser vistos como modelo mítico para uma psicologia criativa com as mudanças pelas quais passamos nos dias atuais. Muitas das dificuldades contemporâneas que afligem o ser humano são “problemas de amor, casamento, separação, casais em confusão, homossexualidade, promiscuidade erótica – a busca compulsiva e desesperada da afinidade psíquica e identidade erótica.
          Psiquê pensa várias vezes em desistir de viver, porém se depara com Pã (deus pastor) e, por intermédio dele, recebe o motivo para continuar vivendo. Pã é sábio e cordial com Psiquê. Sua colaboração intervém de forma importante para que prossiga o desenvolvimento da princesa. O mentor da jovem simboliza o analista que dá pleno sentido ao que parece absurdo e sem sentido algum.
               Psiquê enfrenta a descida ao submundo, a mesma ação ocorre no processo analítico. Segundo Boechat: “Na psicoterapia moderna, o motivo arquetípico da morte e ressurreição está no centro do processo terapêutico. Todo paciente deverá morrer, descer ao seu inferno pessoal, ir ao fundo do poço, como se diz, para se transformar.
               À custa de muito esforço, sofrimento e humilhação, a jovem princesa (Psiquê) realiza as tarefas árduas que culminam no contato com o mundo das trevas. Sua trajetória pelas profundezas simboliza luto, dor e lamentação; é um processo que a faz reconhecer suas limitações, e dessa forma, na paciência, fé e perseverança, conquista sua maturidade e uma nova maneira de enxergar o mundo. A grande importância da descida de Psiquê ao submundo é que ela alcançou a esfera psíquica, a experiência do encontro, que simboliza sua individuação* (processo através do qual o ser humano evolui de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o que implica uma ampliação da consciência).
          O desfecho favorável na última tarefa de Psiquê conta com a intervenção de Eros. Dessa forma, Boechat menciona o conto de Eros e Psiquê como metáfora da coniunctio(conjunção) do Eu e do Outro, como ocorre na práxis analítica no que tange à **transferência, possibilitando a transformação da personalidade. Boechat alude que: o processo de individuação só pode ser completo com o diálogo com o outro (ajuda externa). A interação com o outro, que vê o processo de fora, favorece e ajuda a contenção do processo de individuação pela consciência. O indivíduo sozinho cai frequentemente em sono letárgico, isto é, fica adormecido nas projeções dos conteúdos inconscientes e não consegue o confronto discriminativo eficaz. Esse outro do conto pode ser personalizado por relacionamentos significativos na vida de cada um ou evidentemente pela figura do seu próprio analista pessoal.
A relação analítica tem um desígnio específico, o de estabelecer um relacionamento entre o ego consciente e o inconsciente. O psicoterapeuta presente como ser humano é um “instrumento a serviço do Si-mesmo.” No entanto, precisará lutar consigo mesmo, tomar consciência de suas reações ao amor transferencial que podem revelar coisas a respeito de si mesmo. Jung e Freud foram enfáticos quanto à necessidade de autoconhecimento por parte do analista. Assim, é por intermédio de Eros que o processo analítico se realiza e ele revela sua verdadeira natureza quando o analista se empenha na arte de educar e despertar a alma.
Para que o paciente possa criar uma verdadeira relação com sua psique, com os outros e com o universo, é preciso que se estabeleça primeiro a verdadeira relação analista/paciente. E, para que o analista possa verdadeiramente se relacionar com seu paciente, aquele precisa ter trilhado seu próprio caminho. A Psicologia é uma profissão de autorreflexão e de reflexão, atitudes que possibilitam observarmos e integramos os “mistérios” das transformações em nós (psicoterapeutas) e nos outros.
Há que se ter vocação para tal. “[...] a palavra vocação está relacionada com algo mais profundo e essencial – a ligação com Deus ou com os deuses, ou seja, com as forças que se manifestam dentro da psique.”
Jung frequentemente falava do mito do curador ferido para ressaltar o quanto o analista precisa estar em relação com suas feridas já que só o ferido, cura.
A psicoterapia é amor à alma. O analista deve estar definitivamente empenhado em seu ofício, no processo de “fazer alma” e na reconquistar eterna de Eros, é este que indica o caminho e contribui com o desígnio sublime de despertar e engendrar a alma.
 
 
 
Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
30 anos de experiência profissional
 
FONTES:
 
APULEIO, Lúcio. O Asno de Ouro. Rio de Janeiro: Tecnoprint, Edições de Ouro,
[19- ]. (Coleção universidade).
 
BOECHAT, Walter. A Mitopoese da psique. 1ª reimpressão. Petrópolis: Vozes, 2009
 
BULFINCH, Thomas. Mitologia: História viva. São Paulo: Duetto, v. I, 2001.
 
Eneide Caetano. O FEMININO NA RECONQUISTA DO AMOR FERIDO: Reflexos do Mito de Eros e Psiquê no relacionamento afetivo e na relação analítica, 2016.
NEUMANN, Erich. AMOR E PSIQUÊ. São Paulo: Cultrix, 1971
 
FREUD, S. (1916/1976). Conferências introdutórias sobre psicanálise. Conferência XXVII – Transferência. In: Coleção standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 16). Rio de Janeiro: Imago.
 
HILLMAN, James. O Mito da Análise. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
 
JACOBY, Mário. O Encontro Analítico. São Paulo: Cultrix. 1984.
 
JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. 21ª ed. Petrópolis: Vozes, v. VII/2, 2008.
 
* A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é. Com isto, não se torna "egoísta", no sentido usual da palavra, mas procura realizar a peculiaridade do seu ser e isto, como dissemos, é totalmente diferente do egoísmo ou do individualismo. (JUNG, 2008)
 
** conjunto de sentimentos positivos ou negativos que o paciente dirige ao psicanalista, sentimentos estes que não são justificáveis em sua atitude profissional, mas que estão fundamentados nas experiências que o paciente teve em sua vida com seus pais ou criadores. Portanto, a característica da transferência é repetir padrões infantis num processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam na pessoa do analista (FREUD, 1916/1976)
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