28/08/2019 às 11h51min - Atualizada em 28/08/2019 às 11h51min

Fenster

O portão de Brandemburgo é a principal vista da janela que abro hoje, nessa bela cidade chamada Berlim. A Alemanha,  devido a fatores históricos nem sempre é vista por sua beleza e qualidade de vida. As estórias que permeiam sua história, muitas vezes nos fazem ter uma visão preconceituosa do país. Sou de uma geração que conheceu duas Alemanhas, a oriental e a ocidental, divididas pelo muro de Berlim, eu poderia ver o muro pela fenster, mas preferi ver esse majestoso portão.

A Alemanha dividida em duas partes por uma guerra e unida novamente após uma nova conjuntura política nos faz analisar a dualidade existente em cada ser humano. Quando eu era criança escutava que em cada um de nós havia do lado esquerdo um capetinha e do lado direito um anjinho e que a todo instante os dois falavam baixinho em nossos ouvidos sobre sermos bons ou ruins.

Mais tarde descobri o Yin Yang, que é um princípio da filosofia chinesa, onde yin e yang são duas energias opostas. Yin significa escuridão e yang é a claridade. A luz, que é uma energia luminosa e apresenta-se de maneira muito intensa, é o yang, e a luz muito fraca, é o yin, ou seja, em todas as culturas existe no ser humano o bem e o mal.

Importante saber disso porque algumas vezes ouvimos ou dizemos assim: fulano é tão bom, não acredito que tenha feito isso, ou, beltrano é tão ruim, espantei de ele ter agido assim, como se as pessoas fossem uma totalidade do bem ou do mal. Numa época de intolerância e tendências a totalitarismos, então, isso virou uma marca, se você é de esquerda você é isso, se você é de direita você é isso.

Raul Seixas dizia que preferia ser uma metamorfose ambulante, para quem esqueceu metamorfosear significa transformar, renascer, e assim é todo ser humano, por mais imutável que queira ou se pareça ser. A vida está no movimento, na vibração. Para evoluir é preciso mudar, modificar.

Voltando para fenster e observando o portão de Brandemburgo vejo as oportunidades de transformação que a vida nos dá. Sairmos da escuridão e virmos para a luz, sermos bons e maus, porque a escuridão também é necessária, principalmente para uma pausa, um descanso, mas a luz nos dá energia, força, ser acessível e ajudar o outro é preciso, mas cuidar de sim é essencial, ou seja, vivemos nos equilibrando e todo extremo se torna doença. Assim pode-se dizer que o bem e o mal são parte de cada um de nós, somos o bem e o mal; a diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem.

Nessa perspectiva podemos ser o que desejarmos ser, livre arbítrio, liberdade, seja qual nome for, somos resultado das escolhas que fazemos. A Alemanha optou por se erguer após toda a destruição e humilhação pós segunda guerra, assim somos nós, no trapézio da vida. Ninguém está imune às intempéries, muitas vezes nossas escolhas nos levam para lugares que não desejaríamos estar, permanecer ou não nesses lugares é uma opção nossa.

Muitas vezes não nos damos a oportunidade de melhorar, não nos perdoamos, não saímos de lugares que não gostamos de estar, numa espécie de autopunição. O martírio não pode ser uma opção individual para escolhas erradas que fizemos. Errar, se perdoar e melhorar, precisam ser passos de nossa evolução, não apenas no plano espiritual, mas também na perspectiva humana.

Temos direito a felicidade terrestre, não nascemos para sermos infelizes, mas é preciso ter raça e coragem para assumirmos que desejamos e lutaremos pela nossa felicidade, é preciso ter peito para declararmos  que somos felizes.E principalmente precisamos saber o que é felicidade.

Ninguém consegue ser feliz sozinho, sem estar bem com o meio no qual se encontra inserido, felicidade é algo que deve ser compartilhado.

Aceitar que somos uma mistura do bem e do mal, portanto imperfeitos  faz parte do nosso reconhecimento pessoal, de nossa aceitação humana. Reconhecer e respeitar as imperfeições que existem em cada um de nós nos ajudam a tornarmos melhores.

Uma vez reconhecida a dualidade humana, se somos o bem e o mal, qual parte está se sobrepondo em nossas vidas?Reclamamos da realidade, do mundo, mas o exterior é apenas reflexo do conjunto que formamos, estamos sendo mais mal ou bem? Estas escolhas estão sendo conscientes?

O portão de Brandemburgo é um símbolo do triunfo da paz sobre as armas, desde sua construção esse monumento passou por diversas fases, da glória ao esquecimento e hoje é um espaço emblemático de Berlim. O Portão de Brandemburgo foi o cenário de muitos fatos históricos importantes e, sob os seus arcos, passaram membros da realeza, as tropas de Napoleão e alguns desfiles nazistas. Atualmente, tanto de dia quanto à noite, o Portão de Brandemburgo é um dos pontos mais importantes e agradáveis para ver Berlim.

Passar pelas tempestades é o que nos dá direito de usufruir do sol. Que nossa parte boa, que o bem, possa se sobrepor em cada um de nós, que a consciência de sermos livres para nossas escolhas possa nos oportunizar sermos melhores a cada dia.

Como cantou Gorpo em um dos episódios de um famoso desenho animado da década de 1980
 
O bem vence o mal
Espanta o temporal
O azul o amarelo
tudo é muito belo

O bem vence o mal
O fraco fica forte
E vence até a morte
Isso é o que ele faz

Harmonia, é o segredo que traz alegria
Só se vence quando há harmonia
Harmonia e amor.

Some a escuridão
Relâmpago e trovão
O bem vence o mal
Espanta o temporal
Espanta o temporal pra valer
 
Até a próxima janela, com olhos e almas sempre abertos ao bem.

Referência:
APRENDENDO A REEDUCAR:< https://crisviannarj.wordpress.com/tag/o-bem-vence-o-mal/>. Acesso em 11 ago. 2019.
CIVITATIS BERLIM.Disponível em:< https://www.tudosobreberlim.com/portao-brandemburgo>. Acesso em 11 ago. 2019

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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