02/09/2019 às 10h01min - Atualizada em 02/09/2019 às 10h01min

SETEMBRO AMARELO: Reflexões sobre o suicídio e as necessidades do confronto com a morte

Os aspectos sombrios do suicídio – agressividade, vingança, chantagem emocional, sadomasoquismo, ódio ao corpo, apontam que os movimentos suicidas oferecem pistas sobre um “assassino interior” que habita a psique. Quem seria e o que ele quer da pessoa, família, entorno social? Como abordá-lo terapeuticamente? Como ouvi-lo? Como dialogar com suas demandas e necessidades, que não estão sendo ouvidas pelo sujeito? 

          Quando uma pessoa fecha-se em seu mundo e indica que está tendo dificuldades, é URGENTE buscar apoio para esta situação, especialmente quando está associada à ideação suicida, ou mesmo a tentativas de suicídio.  A história pregressa de sofrimento e o conflito que o produziu ainda persistem. Na prática clínica, declarações do tipo: “não vale a pena viver” ou “a única saída é a morte” são comuns no discurso de pessoas que consideram o suicídio a única solução para seus conflitos.
          Hillman questiona o posicionamento terapêutico que, identificado com o discurso da medicina, direito e religião, vê a morte como um mal a ser tratado e combatido. Sua crítica é dirigida à perspectiva clínica que exalta apenas um dos polos da díade morte-vida e privilegia a melhora do paciente negando suas condições emocionais reais, a que não se adapta aos ideais de saúde ligados à produtividade, sucesso, à negação de conflitos e à adaptação social.
          A morte, enquanto experiência arquetípica (experiência hereditária comum a todos humanos) está ligada à necessidade de transformação da personalidade e a novas perspectivas existenciais para o indivíduo, portanto falar dela e de suas intenções com o analisando poderia, em alguns casos, evitar sua concretização no ato suicida, pois este seria uma espécie de consolidação das fantasias de morte. É importante estabelecer uma relação metaforizada com a morte a partir dos símbolos e fantasias inconscientes, com o objetivo de alcançar os sentidos impedidos de se realizarem.
          Os aspectos sombrios do suicídio – agressividade, vingança, chantagem emocional, sadomasoquismo, ódio ao corpo, apontam que os movimentos suicidas oferecem pistas sobre um “assassino interior” que habita a psique. Quem seria e o que ele quer da pessoa, família, entorno social? Como abordá-lo terapeuticamente? Como ouvi-lo? Como dialogar com suas demandas e necessidades, que não estão sendo ouvidas pelo sujeito? 
          O analista deve propor e sustentar a psicoterapia como um espaço para se falar da morte e dos aspectos sombrios, tomando aquela como um personagem, tal qual é feito diversas vezes no cinema e na literatura, dando-lhe voz ativa no setting analítico, dialogando e indagando o que precisa morrer e não pode mais ser mantido vivo nos moldes que se encontra, de maneira que o analisando possa trazer livremente suas fantasias e ideias a respeito desse assassino que habita a psique e circula em torno do eu, tentando feri-lo e atacá-lo; ou que, talvez esteja fazendo um convite para mudanças no modo como a vida está sendo conduzida. Indagar sobre o ponto de vista simbólico: “o que em mim precisa morrer?” ou “quem em mim deseja morrer?
          Essa abordagem permite dar um lugar para as fantasias suicidas se apresentarem ao sujeito, sendo um caminho para que ele fale delas a um outro (psicoterapeuta) sem que este desvie a atenção e a libido do analisando para assuntos ou tarefas (trabalho, viagem, estudos, distrações) de forma mecânica e convencional; pois, se a morte não pode ser considerada em sua realidade psíquica, ela se lança concretamente sobre o sujeito – e poderá ser consumada.
          O ser humano nas fases de transição da vida está às voltas com mudanças dramáticas que se refletem em dificuldades quanto ao próprio corpo, à autoimagem e à sua presença no mundo. A falta de rituais, de referências positivas e de espaços para que se possa viver os desafios das experiências de transformação da personalidade que garantam ao ser humano estas passagens com o amparo do meio social, gera ansiedade, angústia, frustração, desamparo, baixa autoestima, etc., difíceis de serem elaborados. É nessa lacuna que os impulsos suicidas se manifestam.
          Inconscientemente, há algo sendo anunciado nas atuações da pessoa - os vários complexos inconscientes do sujeito, aos quais Jung deu o status de “subpersonalidades” que, carregados de afeto, podem se interpor à consciência.        
          O mito de Eros e Psiquê nos fala dos obstáculos da experiência do encontro com o outro e de enfrentamentos narcísicos que se dão na personalidade. Psiquê sente-se desolada e cai em profunda tristeza; após a partida de seu amado (Eros), decide então, dar cabo da própria vida jogando-se em um rio, mas esse a devolve à margem, sugerindo que ela vá em busca de Eros. Ela sai, então, à procura do amado, e vai ter com a própria Afrodite. Furiosa, Afrodite indica a Psiquê quatro tarefas que deveriam ser cumpridas se ela quisesse se juntar novamente a Eros.
          Neste momento do mito, Psiquê encarna a imagem do desolamento, desesperança, da desistência, da impotência e do impulso suicida. As tarefas apresentam importantes significados simbólicos e capacidades que a jovem deveria desenvolver. A cada tarefa cumprida, Psiquê adquire nova habilidade e sai de um estado de profunda inconsciência a respeito de si mesma, para um estado mais diferenciado.
          Assim como Psiquê, pessoas que consideram o suicídio estão simbolicamente às voltas com os desafios da jovem: desejam ardentemente encontrar algo divino (Eros), que possa magicamente esvaziar o intenso sofrimento pela perda de sentidos. Todavia, falta-lhes a força para sustentar o desafio de descobrir a si mesmos em meio ao desejo, às aspirações e às expectativas dos outros.
          Psiquê tentada ao suicídio inúmeras vezes, encarou a morte de outra maneira, conscientemente de frente, como alguém transformada e, após sua trajetória heroica, ela torna-se uma mulher capaz de unir-se a um homem, reencontrando Eros de uma forma renovada, agora como guerreira.
          As tarefas de Psiquê talvez nos falem dos movimentos da alma para individuar-se, como diria Jung, processo psicológico de diferenciação da personalidade em relação ao coletivo, isto é, a construção de um lugar particular no mundo social sustentado pelos sentidos subjetivos.
          Cabe aos profissionais a serviço da alma sustentar o encontro com a morte, buscando abrir caminhos para dar espaço à dor e ao prazer de se descobrir e de ser o que se é, ainda que tendo de suportar escolhas que seriam a princípio insuportáveis no momento de enfrentar a realidade da existência.
          Refletir sobre esta questão/problema nos permite criar recursos para ajudar nossos analisandos a descobrirem seus próprios significados para a vida e para a morte, independentemente de estratégias para preserva-los em nome de uma ética que autoritariamente se traveste de boas intenções, muitas vezes em favor da manutenção de uma morte em vida.
 
Eneide Caetano
Analista Junguiana membro da International Association for Analytical Psychology (IAAP), Associação Junguiana do Brasil (AJB) e Instituto C. G. Jung/MG 
Diretora de Comunicação do ICGJUNG-MG (gestão 2017/2020)
Especialista em Sexualidade humana e Educação Sexual
30 anos de experiência profissional
Referências:
Eneide Caetano. O FEMININO NA RECONQUISTA DO AMOR FERIDO: Reflexos do Mito de Eros e Psiquê no relacionamento afetivo e na relação analítica, 2016.
James Hillman – Suicídio e Alma
Santina Oliveira - O Suicídio e os apelos da alma
 
 
 

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