09/10/2019 às 09h12min - Atualizada em 09/10/2019 às 09h12min

Pequim - 窗戶 Chuānghù

A janela de hoje descortina-se sobre uma cidade desconhecida por muitos e, talvez, conhecida verdadeiramente por poucos, Pequim, capital da China. Dessas janelas vermelhas vamos  adentrar num país  do qual pouca coisa se sabe, e mesmo assim, na é possível garantir com   certeza, se o que se pensa que se sabe, é verdade.

Meu primeiro contato com esse país foi em 1989, em noticiários televisivos que mostravam várias manifestações, por liberdade e democracia, que culminaram com o massacre na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), ocorrido nos dias 03 e 04 de junho, do referido ano.

A imagem de um homem em frente a um tanque de guerra, talvez seja uma das  lembranças  antigas  mais chocantes  que  carrego na memória; esse homem colocava-se em frente aos vários tanques de guerra que circularam pela Praça da Paz Celestial, no dia 05 de junho, um dia após o massacre. Sozinho com uma calça preta, uma camisa branca, em silêncio, o homem recusava-se a sair da frente dos tanques, mesmo quando esses tentavam se desviar dele.

Ninguém jamais soube que destino coube ao homem do tanque, ele não foi atropelado, tampouco baleado, desapareceram com ele e o silêncio sobre seu paradeiro foi o símbolo maior de sua morte.

Muitos anos depois, tive a oportunidade de conviver, quinze dias, com um chinês, que fora apelidado de Jack, pela dificuldade de pronúncia de seu nome. Simples, obstinado, acostumado a viver preso, com asas podadas. Tão diferente do chinês dos tanques. Mesmo estando num país livre no qual os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade voaram por quase todo o mundo, Jack era um chinês e como tal, acostumado a um regime fechado, sem liberdade de expressão, sem democracia. O homem dos tanques, estando na China era mais livre que Jack, na França.

O regime chinês é assim, aprisiona a mente, fazendo dos seus, prisioneiros, independentemente de onde quer que estejam; apodera-se da essência do ser humano, que é seu espírito de liberdade, faz a pessoa agradecer ao seu algoz, adorar sua escravidão. País populoso que quase nada conta, apesar de dizerem viver num regime republicano, é fechado para um mundo que se orgulha de ser chamado de globalizado.

Alguns seres humanos são assim, como a China, vivem enclausurados nas escuridões de seus interiores, sem entenderem que a dimensão da humanidade está na transcendência; teimam em viver dentro de redomas que não protegem ninguém, apenas impedem de viver com todos os riscos que a vida oferece.

Os chineses não sabem, ou melhor, não aceitam que estão alienados, tolhidos de sua liberdade, assim são esses seres humanos; não percebem a realidade ilusória, por isso tentam viver como se a ilusão criada fosse suas realidades.

Daí a importância de sermos solidários a essas pessoas, não tentando impor a realidade a elas, mas, aos poucos, auxiliá-las a interagir com o mundo real, deixando as fantasias, o imaginário, interagindo com a realidade, modificando o meio em que vivem.

As pessoas que vivem na escuridão, na ignorância, na fantasia precisam de companhia de seres de luz; a vida não acontece nas trevas.

A bíblia diz que ninguém acende uma luz para deixar escondida, assim, apesar de, muitas vezes vivermos numa sociedade na qual, aparentemente, o esperto sempre se dá bem, a corrupção prevalece, a aparência é mais avaliada que a essência. Não podemos nos embrenhar na escuridão, nem tão pouco deixar de ser luz.

A China de 1989 nos prova que a liberdade é gigante e não consegue ser aprisionada em todos para sempre. Mesmo não sendo permitido pela censura, o homem dos tanques não se perdeu no silêncio que envolveu seu desaparecimento. Seu gesto, vindo de uma China fechada foi retumbante, o bastante para lembrar a cada um de nós, trinta anos depois que, não podemos aceitar passivamente que tentem calar nossa voz, destruir nossos sonhos.

As pessoas más não podem nos causar medo, não podem nos corromper, nos fazer acostumar com um regime no qual o poder e o dinheiro prevaleçam em detrimento do ser humano. O homem dos tanques teve seu espírito livre, sua alma liberta. Se seu exemplo não pode ser divulgado na China, que seu gesto icônico seja alerta para o mundo inteiro. Mesmo em meio aos massacres, sempre existirão os homens e as mulheres contra os tanques. Até a próxima janela.


Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.

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