15/10/2019 às 08h21min - Atualizada em 15/10/2019 às 08h21min

Escola

Hoje a minha vista foi  de  uma janela que permeia toda minha existência. Quero conversar sobre o papel da escola na vida de cada pessoa e de toda uma sociedade. Frequento escola desde os sete anos de idade; minha vida é dentro de uma escola a maior parte do tempo. Minha alma é de professora, um ser que enfrenta os dias, se reinventa, ama, sofre e aprende um pouquinho mais, cada vez que ensina. Minha memória é nítida, a primeira vez que entrei em uma escola para estudar, o corredor, os rostinhos dos colegas, a bondade da professora.

Minhas saudosas heroínas, Dona Terezinha Santana, Dona Auta, Dona Cecília, Dona Cota, Dona Carmem, Dona Zenilda, entre tantas outras donas, que eram, de fato donas; donas do conhecimento, do saber, da autoridade. Eram tantas coisas novas. O papel de pão no qual treinei as variadas voltas da letra H, os morrinhos, as músicas, o recreio, o embornal no qual os cadernos e livros eram carregados.

Ah! O livro, o encontro de almas tão esperado. Como eram maravilhosas as histórias dos livros, como foi mágico, aprender a ler. Outros tempos, outra escola. O mundo me era apresentado e nós sedentos de aprender, queríamos saborear tudo. A primeira palavra lida foi BATATA, até hoje, adoro batata, e as viagens eram fantásticas. Depois veio a tabelinha ou tabuada, primeiro de dois e sucessivamente até nove. As professoras eram uma espécie de deusas e através de magia pura nos mantinham sentados, enfileirados, saindo da ignorância e entrando no mundo do conhecimento.
Éramos felizes, mesmo com os castigos na hora do recreio; o senhor Jair, com sua bicicleta, indo pelas ruas através dos alunos arteiros e briguentos. Foi uma paixão tão forte, que se transformou em amor e não podendo resistir, quando não pude mais ser aluna, transformei-me em professora.

Outra escola, outra época, as professoras tornaram-se professores e, se antes eram deusas, transformaram-se em mortais, homens e mulheres que numa época diferente,  precisam, todos os dias transformar o espaço da escola, num território de pequenas conquistas diárias, no qual, compartilhar  conhecimento nem sempre é a principal função.

Antes, verbos em todos os tempos e modos, defectivos, anômalos e abundantes, hoje a perspectiva de uma escrita que transite pelas várias possibilidades linguísticas é um dragão gigante, desafiado; compreensão e interpretação de textos de gêneros variados uma missão, quase impossível.

Nessa nova posição, outrora alunos, se tornaram colegas de trabalho numa batalha diária pela instigação no aluno pela vontade de aprender. Nunca os poderes mágicos das deusas se fizeram tão necessários. O professor se agiganta, mas as possibilidades e necessidades os fazem cada vez mais anões, frente a uma sociedade que parece não ver mais a escola com a grandiosidade que ela tem.

Nessa luta já vi colegas perderem a voz e a cabeça, e nessa luta insana e muda, nossos ouvidos e mentes insistem em não parar de funcionar. Cada aula dada é um desafio pela busca da atenção do aluno, pela cumplicidade necessária na via dupla do ensinar e aprender.

Época na qual nunca se vez, tão necessário, que homens e mulheres de força, de garra e luta se empenhem para que não se esmoreça a esperança de que um dia a escola volte a ter a importância e o respeito tão necessários para que a humanidade sobreviva e continue sua evolução. Desvalorização profissional refletida em tantos aspectos, mas que não diminui a garra de quem, tantas vezes, em meio a seus problemas particulares prioriza a sua profissão, faz o seu melhor, dá seu tudo, mesmo quando esse tudo esvai sua alma, deteoriza sua saúde, opaca seus olhos.

Em meio à burocracia dos papéis, do descaso de muitos, da incompreensão daqueles que, devendo ser os otimizadores, são os algozes, um aluno, olha e diz: “aprendi muito, com o senhor, ou com a senhora.” Essas palavras nos devolvem o sopro da vida, acendem a luz de nossos olhos e nos fazem reinventar outra aula, outra história.

Impossível, durante anos numa profissão não cometermos erros, avaliarmos mal algumas vezes, mas o que muitos esquecem é que, não somos deuses, nem deusas, apenas humanos, numa luta por uma instituição que muitos setores da sociedade abandonaram.

Ainda sonhamos, temos esperança e acreditamos que a escola, como instituição, é capaz de ensinar e aprender; capaz de transformar crianças e adolescentes em homens e mulheres que podem fazer de nossa sociedade um espaço melhor.

Às vezes sentimos o peso do mundo e a responsabilidade pela história que será contada no futuro, mas percebemos que a nossa missão está sendo cumprida, mesmo não reconhecida. Nós, professores e professoras continuamos de pé, na luta, exercendo com humildade e dignidade nossa profissão. Se a sociedade tem dificuldades em exigir nosso reconhecimento, nós, professores e professoras nos lembraremos sempre, que fazemos, sim, diferença positiva para a vida e sobrevivência da humanidade.

Quinze de outubro não é o único dia do professor; o dia do professor são os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, pois, além dos duzentos dias letivos, nos demais, preparamos aulas, aprimoramos nosso conhecimento, nos fortalecemos para construir grandes histórias.
 

Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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