23/10/2019 às 09h11min - Atualizada em 23/10/2019 às 09h11min

창문 Changmun

Às vezes começamos coisas, sem noção do lugar para o qual as mesmas irão mos levar. Não sei se chegaria a essa janela se tivesse nitidez das coisas que ela me faria avistar. Talvez eu esteja sentimental, mas é importante quando a vida nos joga realidades visíveis, que teimamos em não ver.

Existem tantas situações nesse mundo, imaginem em todo o universo. Nesse meu passeio, chego à  Coreia e meus olhos avistam essa cena, esse espaço.

Área de segurança conjunta vista da Coreia do Norte, à esquerda e da Coreia do Sul, a direita; do lado norte-coreano, um grande edifício clássico, no estilo soviético, do lado sul um edifício no estilo futurista. Essa área de segurança é resultado de um país de história milenar, que foi dividido pela guerra.

A Coreia foi invadida e dominada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo antes do término da guerra, já se havia determinado o paralelo 38° Norte como limite geográfico para atuação militar dos soviéticos e norte-americanos.

Desta maneira, após a derrota do Japão, a Coreia foi fracionada, em 1945, entre norte-americanos e soviéticos. Assim, os limites estabelecidos transformaram-se em divisão real, surgindo dois Estados coreanos, sob a ocupação de cada uma das duas potências:
A região de fronteira entre as duas Coreias, tornou-se área de sucessivos conflitos armados, sobretudo pelas divergências político-ideológicas entre os dois Estados e a tensão gerada pela Guerra Fria.

Após décadas de ataques, atentados terroristas como a explosão do avião da Korean Air, em 1987, os dois países resolveram iniciar conversas para uma possível aproximação. A visita do presidente sul-coreano Moon Jae-in ao seu par norte-coreano, Kim Jong-un, em abril de 2018, pode inaugurar os entendimentos para por fim ao último conflito em aberto da Guerra Fria.

Ai! Desculpem-me pela longa  aula de história, mas a verdade é que precisamos conhecer a história, por mais longa que seja, antes de fazermos nossos julgamentos,  falamos demais, ouvimos de menos e como juízes, nas superficialidades dos julgamentos, vamos rotulando as  pessoas, sem nos darmos a oportunidade de entender suas personalidades, através de suas histórias.

As duas Coreias nos ensinam como a interferência de terceiros, provoca conflitos, atrapalha relacionamentos, destroi amizades, cria verdadeiras guerras; muitas vezes somos usados por outros, apenas como peças de um jogo, descartáveis e, sem saber,  somos manipulados a tomar determinadas atitudes para atender a interesses de terceiros.

Percebo essas duas Coreias atuais como uma família, dois amigos, ou qualquer outra relação que tem sua intimidade interrompida por intrigas, fofocas, armadilhas. Quem já não passou por uma situação dessas? Quem nunca foi vítima de uma “futrica” tão bem engendrada que destruiu a confiança, o respeito, o amor e intimidade de uma relação?

Vivemos num mundo de inseguranças, medos e, muitas vezes, pessoas de índole ruim, sem caráter, aproveitam as incertezas que surgem em meio a conflitos para minar relações de harmonia e amizade.

Um comentário recheado de maldade, uma observação fora de contexto; algumas fofocas são comentários sobre a vida de terceiros, mas a “futrica”, a intriga têm o objetivo de criar confusões, desfazer amizades, separar famílias, dividir países.

Antes de fazer um comentário, ou observação a respeito de alguém precisamos estar cientes das conseqüências que isso poderá trazer para todos. Será que o transtorno que causará, não valeria o silêncio?A dor ou inimizade que provocará não compensa deixar a boca fechada?

Se após a análise, se decidir por falar,  não sejamos cínicos para fingirmos que não queríamos causar a discórdia, semear o desamor. Vidas já foram ceifadas por pessoas que falaram demais. A arma usada no crime, antes da faca ou do revólver, foi a língua.

O causador da intriga também não sai ileso. A União Soviética pagou um preço alto pela polarização do mundo, sendo fragmentada;  os norte-americanos, vivem cercados de medo devido a atos de terrorismo, não se pode viver na paz, quando se provoca a guerra.
Observando essa área de segurança, percebendo os limites tênues que fazem a paz ou a guerra; somos levados a refletir no mal ou no bem que podemos produzir com nossas palavras.

Muito se tem falado sobre corrupção, egoísmo, capitalismo desenfreado, e muitas vezes nos colocamos como expectadores desses discursos, sem compreendermos e aceitarmos nossa parcela de responsabilidade pelas coisas que nos cercam. Quais as nossas palavras ou silêncios perante as situações diárias que fazem da nossa realidade uma área de segurança ou de guerra?

Nas duas próximas janelas quero encerrar essa crônica numa trilogia que não imaginava que iria ocorrer. Coreia do Sul e Coreia do Norte, histórias de superação e sofrimento, liberdade ou aprisionamento, resultados de interesses que brincam e jogam com vidas. Seja a palavra que gostaria de ouvir, o silêncio que necessita para escutar, a paz na qual gostaria de viver. Continuemos na espreita.


Simone Aparecida de Sousa Capperucci
Formada em Língua Portuguesa e suas literaturas pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC) em 1997, pós-graduada em Língua Portuguesa em 1998 pelo UNEC, especialização em Literatura e Línguística aplicada em 2005 pelo UNEC, mestre em Educação e Linguagem pelo UNEC em 2010.
Professora de Língua Portuguesa nas séries finais do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais, desde 1996 e professora do Curso de Letras no UNEC, desde 2005.
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