04/03/2020 às 09h21min - Atualizada em 04/03/2020 às 09h21min

A rua do meio

Na rua do meio as crianças eram livres e os carros que , raramente passavam, eram os intrometidos. Quando pegavam um tamanho, a rua do meio era para brincar de passar

Foto: Maria de Lourdes de Assis Dornelas

Entre tantos caminhos, hoje quero falar sobre a rua do meio. Aquela mesmo, plana, paralela aos dois morros que constituem nossos endereços. Todas as crianças da redondeza pertencem à rua do meio.

Lá é possível jogar bola com menos possibilidades de escaparem morro abaixo, andar de bicicleta, brincar de pique.

Quando éramos crianças, meninas eram proibidas de brincarem com meninos, com exceção da rua do meio onde nos misturávamos e independentemente do sexo, éramos todos, apenas crianças; apesar de nosso tio Divino, nunca ter concordado com isso. Lembranças doces e puras de uma época que já não existe mais, até para as crianças de hoje.

A rua do meio continua lá, no mesmo espaço geográfico, mas as crianças do morro já não são as mesmas. Outros tempos, outros comportamentos. Hoje a prioridade é o celular com seus jogos hipnotizantes. O espaço, antes sempre ocupado da rua do meio, encontra-se, atualmente, solitário.

As crianças que outrora ocupavam a rua, como se essa fosse um santuário, encontram-se enclausuradas dentro de quartos, em frente a vídeo-games, computadores e celulares, rodeadas por um mundo vazio de relações, sensações, cores, muitas vezes vistas como mini adultos.

Talvez nunca tenham sabido, verdadeiramente, o que é brincar, ralar braços e pernas nos tombos de bicicleta, nos atropelamentos dos piques, guardar chicletes para terminar de mascar depois porque ainda tinha doce, tomar água no vizinho para a mãe não prender dentro de casa.

Na rua do meio as crianças eram livres e os carros que , raramente passavam, eram os intrometidos. Quando pegavam um tamanho, a rua do meio era para brincar de passar

anel, à noite, mas quase nunca se escolhia salada mista, era escandaloso, insano para um pensamento infantil.

Não éramos feios, nem bonitos, pretos ou brancos, ricos ou pobres, gordos ou magros. Éramos crianças afinal e rótulos não possuíam significados. A acusação maior era de ter xingado uma ou outra mãe, o que era resolvido no braço e a briga separada pelos próprios pares. Tudo bem que quando a situação era delatada e alguma mãe tomava conhecimento algumas chineladas, puxões de orelha e castigos surgiam; o coração infantil era puro e isso não gerava traumas ou ódios.

Em que momento a rua do meio ficou esquecida? Quando deixou de ser o caminho certo das crianças? Isso precisa ser repensado e retomado. A rua do meio é a essência da puerilidade, não como semântica de imaturidade, pois éramos extremamente maduros em nosso mundo, senhores de nossas brincadeiras, comandantes das atividades do dia.

A hora de comer era quando desse fome, de dormir quando desse sono, o dia tinha poucas horas para nossas brincadeiras e sonhar acordado era mais prazeroso que dormindo.

Independentemente da idade que tivermos, vamos para a rua do meio, sem celulares, sem armaduras, sem couraças. Resgatemos a meninice que existe dentro de cada um de nós. Libertemo-nos das convenções, judiações, das etiquetas sociais que nos tornam fúteis e inúteis a nós mesmos. Saiamos das redes que nos prenderam como peixes e sejamos felizes com a liberdade das crianças de outrora, da rua do meio.Deu uma saudade danada de doída!

Link
Leia Também »
Comentários »