11/03/2020 às 17h13min - Atualizada em 11/03/2020 às 17h13min

Portal

O portal mágico foi fechado e mesmo hoje, quando retornamos ao sítio, o fazemos confortavelmente num automóvel, recebidos com mesas fartas de frutas, pães e bolos adquiridos nos supermercados e padarias da cidade.


A rua do meio abriu uma porta da infância e hoje preciso completar minhas reminiscências encantadas falando sobre nossas idas aos sítios que em nosso vocabulário eram apenas chamados de roça e nossos amigos, que possuíam o privilégio de morar no encantado, habitualmente convidavam a nós, pobres moradores da cidade, a atravessarmos o portal e habitarmos por dia ou tardes inteiras nesse espaço mágico.

O sítio não precisava ser do pica-pau amarelo, mas sempre possuía uma Dona Benta, uma tia Anastácia encostadas em um fogão a lenha, misturando ingredientes numa panela e transformando-os em poções mágicas com gostos maravilhosos.Era preciso abastecer o bando de crianças que, uma vez por outra, irrompiam cozinha adentro em busca de comida.

E como era grande a fome depois de tanta energia gasta subindo nas árvores atrás de frutas ou apenas de aventuras; chupar laranjas, mangas, mexericas, quantidades ilimitadas com um saboroso gosto de inocência. Colher milho para mingau ou assar e cozinhar, recolher ovos nos ninhos das galinhas para uma cremosa gemada da dona Deja; sem esquecer aquela rapa perfeita do requeijão da Dona Lourdes, broas e bolos quentinhos saídos do forno.

Ninguém nunca pensou em quanto custava cada uma dessas coisas. Penso que por serem tão valiosas, nem valor monetário seria suficiente para pagar. Também não importava se você era filho da lavadeira, mesmo a primeira pergunta dos donos da casa ser: você é filho de quem? O importante era que éramos crianças e nosso mundo era blindado das hipocrisias do mundo. O único momento nostálgico era o da despedida, mas sabíamos que em breve estaríamos de volta e a magia restaurada.

Pular a porteira era uma das últimas travessuras. Talvez, se soubéssemos que aquela seria a última vez, teríamos pulado, despulado, repulado, desrepulado e todas as outras opções que a língua e a vida nos dessem. Viemos para casa inocentes de que aquela seria nossa última vez, nossa última fruta colhida direta do pé, nossa última boneca de espiga de milho, última gota de felicidade pura e inocente.

O portal mágico foi fechado e mesmo hoje, quando retornamos ao sítio, o fazemos confortavelmente num automóvel, recebidos com mesas fartas de frutas, pães e bolos adquiridos nos supermercados e padarias da cidade. A magia do portal foi quebrada, as assombrações noturnas substituídas por ladrões e assaltantes, o espaço antes encantado, se tornou quesito de posição social. Uma pena e uma grande saudade da simplicidade e acolhida na roça. Dona Deja, não resistiu e veio para a cidade, Dona Lourdes foi para o céu, tudo machuca o coração e dói.
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