16/03/2019 às 00h21min - Atualizada em 19/03/2019 às 00h21min

Bolsa sobe quase 30% em sete meses e está perto de bater a marca dos históricos 100 mil pontos em 2019

Nesta semana o indicador de pontuação da B3 (antiga Bovespa) chegou nos inéditos 99 mil pontos e a expectativa é de aumentar, sobretudo com os indicativos da reforma da previdência.

Matheus Aguiar



Desde os rumores da candidatura e da possibilidade da entrada de um governo que possua em sua equipe pessoas alinhadas ao liberalismo econômico, a bolsa brasileira começou a demonstrar indicadores receptivos à essa mudança. Mais precisamente a partir de agosto de 2018, o Índice Bovespa, que é composto por ações das empresas com maior número de negociações e volume financeiro na bolsa, iniciou uma guinada progressiva até os números atuais.


Em agosto de 2018 a bolsa pariu de um crescimento cadente de 77 mil pontos até a marca de 99 mil alcançados no fechamento do pregão da última sexta-feira (15). Fonte: B3

Em agosto de 2018 a bolsa pariu de um crescimento cadente de 77 mil pontos até a marca de 99 mil alcançados no fechamento do pregão da última sexta-feira (15). Fonte: B3



 

Isso implica, em linhas gerais, numa maior valorização das empresas inscritas no mercado. Além disso, o acréscimo de capital acionista nas firmas gera investimento externo, aumento na empregabilidade e , o que, ao final dessa cadeia econômica, poderia render num superávit até então pouco esperado para o Brasil.

Mas para entender o porquê de toda essa movimentação positiva sobre a bolsa brasileira, é necessário observar atentamente os acontecimentos no âmbito político do país. Vale ressaltar que esses fatos, em ambos os planos, são cíclicos e co-relativos, ou seja, a expectativa da bolsa infere, diretamente, nas ações políticas, e essas por sua vez definem a ‘conformação’ da animosidade no espectro econômico. Vamos aos pontos altos da semana:


Leilão dos aeroportos

No início deste mês, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) confirmou a concessão de 12 aeroportos nacionais para a ampliação, manutenção e exploração por parte das empresas vencedoras das licitações. Essa decisão tem origem num decreto presidencial de 24 e outubro de 2017 que produziu uma lista de companhias estatais que deveriam fazer parte do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do Governo Federal.

Para facilitar a divisão nos leilões, 3 blocos de aeroportos foram definidos, sendo eles o Bloco Nordeste: Recife, Maceió, João Pessoa, Aracaju, Juazeiro do Norte e Campina Grande; Bloco Sudeste: Vitória e Macaé; Bloco Centro-Oeste: Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e Alta Floresta.

Já na última sexta-feira (15) aconteceu a primeira sessão de lances pelas estatais agrupadas. Todos os 12 aeroportos foram vendidos na B3 (bolsa de valores) pela quantia de R$ 2,158 bilhões, sendo que o valor mínimo total era de R$ 218,7 milhões. As empresas beneficiárias foram a espanhola Aena Desarrollo Internacional, a suíça ZURICH Airport Latin America, a paulistana SOCICAM Terminais Rodoviários, e a baiana SINART Sociedade Nacional de Apoio Rodoviário e Turístico.


Apenas a região Centro-Oeste ficou com empresas nacionais. Fonte: Valor/B3

Apenas a região Centro-Oeste ficou com empresas nacionais. Fonte: Valor/B3


A ANAC também estipulou um valor comparativo de movimentação de passageiros para os blocos até o ano de 2049. O grupo do nordeste é o que apresenta maior estimativa de circulação – neste ano o número de clientes foi de 13,2 milhões e o cálculo indica que em 2049 este número pulará para a casa dos 41 milhões. Foi pensando justamente nessa expectativa que o Governo entendeu que a melhor forma de acompanhar a manutenção o desenvolvimento dos espaços passaria, necessariamente, pelo investimento da iniciativa privada. Todos os prazos de concessão valerão por 30 anos.


Reforma da previdência

Na última quarta-feira (13), foi instalada a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que realizará a primeira análise do texto da Reforma da Previdência. Esse colegiado tem a atribuição de verificar apenas os pontos que possam ferir cláusulas pétreas da constituição.

Ainda que esse primeiro trâmite possa parecer pouco polêmico, já que a proposta da matéria não será discutida, os parlamentares indicaram que só haverá possibilidade de avaliação da comissão após mudanças nas propostas para a classe militar do país. Além disso, alguns deputados defendem que a redução no valor do benefício de prestação continuada atentaria contra a dignidade humana. Ou seja, essa fase pode ser decisiva para o andamento da reforma, já que boa parte dos pontos polêmicos podem ser vetados ou não a partir de uma revisão por meio da carta magna.

Após passar por essa comissão, a proposta precisará de 308 dos 513 deputados para ser aprovada na câmara. E é justamente aí que se inicia o imbróglio político, a articulação de cargos e, sobretudo, as possíveis compras de voto. Desta forma, toda a expectativa acerca do assunto depende diretamente de como essas negociações se darão no espectro político, e nenhum palpite pode ser consolidado até que a proposta passe, com possíveis mudanças, da CCJ.

Um outro grande ponto desta reforma parte do desentendimento gerado pela explicação do Governo de como a previdência pública funciona no país. Ao contrário do sistema de capitalização, por exemplo, o INSS não é um investimento monetário, mas sim uma ‘promessa de dívida’. Ou seja, no atual sistema, o contribuinte repassa cerca de 30% do seu salário bruto para o abatimento das contas públicas, incluindo a própria previdência, e em troca admite o compromisso de que no futuro, os próximos governantes irão lhe pagar este valor corrigido à conjuntura econômica do período – podendo, de acordo com a inflação, apresentar um valor de liquidez inferior ao do momento da contratação.

Considerando que a taxa de natalidade no país caiu nas últimas décadas e que a população brasileira está envelhecendo, a possibilidade de que esse contrato seja cumprido se torna cada vez mais impraticável; uma vez que a previdência social do país funciona como um repasse de dívidas que depende de um grande número de contribuintes empregados para sua execução – toda geração de jovens trabalhadores paga pela aposentadoria dos que estão recebendo do sistema.

De acordo com a estimativa, em meados de 2050, a previdência social estaria longe de ser auto sustentável e o rombo econômico estaria ainda maior. Fonte: Ipea/IBGE

De acordo com a estimativa, em meados de 2050, a previdência social estaria longe de ser auto sustentável e o rombo econômico estaria ainda maior. Fonte: Ipea/IBGE




Taxa de juros

Por fim, mas não menos importante, a taxa de juros, mesmo que de forma tímida, vem caindo no país nos últimos meses. Essa queda estimula diretamente o consumo, uma vez que os preços tendem a baixar já que os custos de produção caem e o acesso de crédito pelas empresas são facilitados.

Na maioria das vezes, essas taxas acompanham inversamente as oscilações da renda variável. Ou seja, o aumento no índice da Bolsa (iBovespa), como foi visto nesses últimos meses, vem seguido das quedas dos indexadores que medem a inflação do país, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e a Selic (taxa de controle de inflação nacional).

De acordo com o último relatório Focus do Banco Central lançado no início deste mês, a taxa Selic deverá se consolidar em 2019 com o valor de 6,5% ao ano, sendo que ela fechou o ano de 2018 na casa dos 7,0% a.a. Já o IPCA, de acordo com a pesquisa, flutua na média do 3,9%, valor que reduziria a inflação para cerca de 4%, número pequeno para um início de governo num comparativo com os anteriores – Temer, por exemplo, entrou com uma média de 6,30% de inflação.


Relatório do dia 01/03 mostrou redução nos valores apontados em fevereiro para este ano. Fonte: Focus/Banco Central

Relatório do dia 01/03 mostrou redução nos valores apontados em fevereiro para este ano. Fonte: Focus/Banco Central





Resumo da ópera

Evidentemente, que a abertura comercial à concorrência privada, como no caso do leilão dos aeroportos trás uma expectativa favorável para os investidores do país. Uma vez que o Governo abre precedentes para a entrada de capital estrangeiro e demonstra não temer a privatização de empresas que estão apresentando déficit em sua performance para a economia local, a economia tende a aquecer.

Sem sombra de dúvidas, a reforma da previdência foi e está sendo a maior muleta da boa expectativa dos investidores para o Brasil. Como boa parte dos investidores segue à risca os ensinamentos dos economistas liberais, a ideia de que o rombo econômico seria dissolvido com a aprovação da PEC se torna extremamente atrativa para os acionistas.

Entretanto, ainda que a bolsa consiga bater a histórica marca dos 100 mil pontos, a tendencia é que esse número volte a cair, tendo em vista o ‘toma lá da cá’ que deverá se iniciar após uma possível aprovação da reforma na CCJ.

Já com a queda na estimativa da taxa base de juros, a DI por exemplo – taxa baseada no Certificado de Depósito Interbancário (CDI) – caiu, e a partir disso a movimentação de crédito em instituições financeiras vem aumentando. Nessa linha, é possível que todo um sistema de altas tributações, no caso os bancos, passem a oferecer serviços mais atrativos para seus clientes, uma vez que as corretoras digitais (XP, Rico, BTG Pactual) vem se aproveitando desse panorama econômico para disponibilizar produtos com baixas taxas de administração.

 


 
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