03/07/2020 às 08h59min - Atualizada em 03/07/2020 às 08h59min

Por que Google e Apple (ainda) não dominaram o mercado financeiro?

Alexandre Pinto
Tecmundo
As empresas conhecidas como “Big Techs”, a maioria delas criadas no final da década de 90 e nos anos 2000, tornaram-se as grandes vencedoras da nova economia digital. Amazon, Facebook, Apple e Google são exemplos de companhias que transformaram mercados como varejo, mídia, propaganda e telecomunicações.
 
Por meio de uma estratégia centrada em dados, atendendo efetivamente desejos e necessidades diárias dos seus clientes, foram capazes de mudar o nosso comportamento. Como resultado, geram um fluxo de caixa invejável, mesmo em momentos de crise como o atual, e construíram grandes barreiras de entrada à concorrência pois possuem escala e efeito rede difíceis de se reproduzir (fenômeno “winner takes it all”) . Não por acaso, as Big Techs são destacadamente as empresas mais valiosas do mundo.
 
Haverá um tsunami em serviços financeiros, similar ao que ocorreu com o varejo nos Estados Unidos, após o surgimento da Amazon (“retail apocalypse”)?
 
Portanto, é justificável a preocupação dos participantes do mercado financeiro (bancos tradicionais e digitais, fintechs e órgão reguladores) quanto à disrupção que as Big Techs podem causar nesse ecossistema. Haverá um tsunami em serviços financeiros, similar ao que ocorreu com o varejo nos Estados Unidos, após o surgimento da Amazon (“retail apocalypse”)?
 
Para tentar responder esta pergunta, em primeiro lugar, vale a pena examinar as  vantagens competitivas das Big Techs perante aos seus potenciais concorrentes do mercado financeiro:
 
- Poder da marca: especialmente para os millenials, que confiam mais nas empresas de tecnologia do que nos bancos tradicionais.
 
- Excelência em “personalização em massa”: capacidade de oferecer, a partir do histórico de uso e perfil dos seus clientes, produtos e serviços direcionados a suas necessidades específicas.
 
- Escala: as Big Techs possuem centenas de milhões ou bilhões de clientes/usuários ativos no mundo. 
 
- “Share of attention”: além da imensa base de usuários, as Big Techs fazem parte da nossa rotina diária e nos engajam de forma bem mais intensa do que os provedores de serviços financeiros.
 
Mesmo assim, chama atenção o fato de que a oferta de serviços financeiros ainda representa uma pequena fatia destes impérios. Até o momento, as Big Techs têm atuado na “periferia” deste mercado, como distribuidores, por meio de parcerias com players tradicionais. Exemplos:
 
- Apple Pay, Google Pay, Google Wallet, Facebook Pay e Amazon Pay: e-wallets que utilizam meios de pagamento de emissores estabelecidos (cartões de crédito e de débito).
 
- Apple Card: cartão de crédito desenvolvido em conjunto com o Goldman Sachs.
 
- Contas correntes: Amazon e Google anunciaram planos para oferecer este serviço em parceria com JP Morgan Chase e Citigroup, respectivamente. 
 
Por que não?

Afinal, por que as Big Techs não montam seus próprios bancos/fintechs ou adquirem empresas financeiras de médio-grande porte e entram para valer nesta “briga”? Existem alguns motivos relevantes que podem justificar esta decisão:
 
- O mercado bancário é altamente regulado. Mesmo nos Estados Unidos, país reconhecido pela liberdade econômica e pouca intervenção do Estado, os bancos devem cumprir uma extensa lista de exigências regulatórias. Talvez, as Big Techs não queiram ter este tipo de “dor de cabeça” e correr os riscos (crédito, mercado, liquidez) inerentes à posse de uma licença bancária.
 
- Considerando a sua dominância em outros mercados, uma incursão em serviços financeiros certamente irá despertar a atenção de órgãos de defesa da concorrência que podem levar, inclusive, a situações como a divisão (“break up”) da AT&T, que foi obrigada a vender partes da companhia nos anos 80, dada a sua condição monopolista no mercado de telecomunicações nos Estados Unidos.
 
- As margens de lucro e riscos associados a serviços financeiros podem não ser tão atraentes para as Big Techs. Ou seja, talvez faça mais sentido do ponto de vista econômico “revender” cartões, financiamentos, seguros, ... do que se tornar um “fornecedor” destes produtos.   
 
Finalmente, é interessante observar que o peso dos fatores acima pode ser bem diferente de país para país. A combinação de um marco regulatório favorável à inovação e maiores margens de lucro devem ter influenciado a decisão do Facebook em oferecer recursos de pagamento e transferência de dinheiro via Whatsapp no Brasil.
 
Nosso país será palco de uma disputa ainda inédita mundialmente
 
Apesar das restrições estabelecidas pelo Banco Central e Cade, existem claramente soluções possíveis para que o Whatsapp atue como uma fintech por aqui. Por exemplo, o conceito de Instituição de Pagamento (tema de uma próxima coluna), estabelecido pelo Banco Central em 2013, permite que empresas como o Facebook gerenciem pagamentos e contas de terceiros sem a necessidade de se tornar uma instituição financeira. Resta saber se a companhia irá trilhar este caminho no Brasil.
 
Caso isto ocorra, nosso país será palco de uma disputa ainda inédita mundialmente e esta experiência servirá de referência para os próximos movimentos das Big Techs no ecossistema financeiro de outros países.
 
***
 
Alexandre Pinto, colunista quinzenal do TecMundo, é Diretor de Inovação e Novos Negócios da Matera e especialista em Open Innovation. Na empresa desde 2001, foi responsável pela criação da área de P&D e do seu ecossistema de parceiros.
Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
" data-width="400" data-hide-cover="false" data-show-facepile="true">