18/12/2020 às 09h42min - Atualizada em 18/12/2020 às 09h42min

LAUDO GEOLÓGICO COM AVALIAÇÃO DA ÁREA EM QUE OCORREU DESLIZAMENTO DE TERRA EM OBRA EM CARATINGA

Fabio Teodoro
A visita em campo foi realizada pelo engenheiro geólogo e responsável técnico, doutor em geotecnia, Leonardo Andrade de Souza, a pedido da Prefeitura de Caratinga, no dia 8 de dezembro.
 
A área avaliada pelo geólogo em que ocorreu a ruptura do talude fica localizada entre a BR-116 e as Ruas Artur da Silva Araújo e André de Oliveira Valadão, no Bairro Rodoviários. No trecho da encosta onde houve o deslizamento, durante a madrugada do dia 7 de dezembro, era realizada uma obra para estabilizá-la.
 
O laudo elaborado pelo geólogo e divulgado pela prefeitura tem
47 páginas. Nele está uma série de fotos que retratam o antes e o depois da ocorrência de deslizamento. A partir da avaliação da área se chegou a uma nova setorização e classificação do risco.
 
O estudo traz um mapa de risco geológico da área avaliada e propõe recomendações para os setores de risco, considerando a proximidade com o período de chuvas.
 
O Setor 1, onde estão os domicílios de números 06 da Rua Maria Ignez de Araújo, 336A e 336 da mesma rua/final da Rua Artur da Sila Araújo, foi classificado com risco muito alto (R4). Para a segurança de todos foi recomendado não permitir quaisquer usos das edificações durante todo o período chuvoso. A área deve ser mantida interditada enquanto não forem executadas intervenções, visando a estabilização da encosta. Em uma primeira avaliação, as três edificações foram classificadas como condenadas.
 
O Setor 2, onde estão situadas as edificações de números 30, 43, 51 e 55, no final da Rua André de Oliveira Valadão, foi classificado com risco alto (R3). Para esse setor foi recomendada a remoção preventiva dos moradores durante o período de chuvas e reavaliação do local. Com o início do período de chuvas, ocorrerá a saturação do pacote de solo no trecho rompido e a montante deste, não sendo possível prever o comportamento do material saturado. É esperada a ocorrência de pequenos movimentos de massa sem a progressão significativa da superfície de ruptura.
 
Em uma primeira avaliação, as edificações não foram classificadas como condenadas, sendo necessária a estabilização definitiva da encosta com a execução de uma nova obra, o que possibilitaria o retorno das famílias. Após o período de chuvas, uma nova avaliação do local também poderá permitir o retorno das famílias.
 
Já em relação aos edifícios comerciais na base, foi recomendado o monitoramento sistemático da área sem a necessidade de interdição dos comércios. Entretanto, caso ocorra alguma alteração no trecho da encosta acima da área comercial, as lojas devem ser interditadas preventivamente e uma nova avaliação realizada pela Defesa Civil.
 
O laudo diz que alternativas paliativas, visando a diminuição do volume de água escoado superficialmente, em direção ao trecho rompido, podem ser adotados, na tentativa de redução da progressão dos processos. Entretanto, o uso de lonas não é necessariamente efetivo, a não ser que esse trabalho seja executado com o intuito de vedar todo o sistema e não apenas parte dele. Quando a inserção é executada de maneira incorreta, além de não impedir a entrada de água tira a capacidade de se observar a evolução da progressão de possíveis processos geodinâmicos, o que no âmbito do gerenciamento do risco não é adequado.
 
Foram indicadas duas ações que podem ser adotadas com o propósito de minimizar eventuais problemas relacionados à saturação do solo, já que estamos no início do período de chuvas. A primeira se refere à adequação da captação e condução do escoamento das águas superficiais da Rua André de Oliveira Valadão, retirando o volume escoado para fora da área rompida. Para ter efetividade, o trecho final da rua, hoje calçado com pedras irregulares e sem rejunte, também deve ser impermeabilizado, bem como a lateral da descida de água onde deveria existir uma sarjeta.
 
O laudo ressalta ainda que o material rompido e mobilizado na base da encosta não deve ser removido, neste momento, considerando o início do período de chuvas. A massa de solo mobilizado confina a base da encosta. “Sua remoção desconfinará ainda mais a encosta o que pode resultar na ampliação ou geração de novas superfícies de ruptura, o que ampliaria ainda mais o risco geológico”. E reforça: “eventuais remoções de material devem estar relacionadas diretamente à elaboração e execução do novo projeto executivo que se fará necessário visando a estabilização de toda a encosta. Deve-se avaliar quando da elaboração do novo projeto de estabilização da encosta a possibilidade de se manter o material mobilizado ao invés de removê-lo, bem como a possibilidade da estabilização do trecho mais a montante com a implantação de cortinas atirantadas considerando a proximidade das edificações ao longo da crista e a montante da atual superfície de ruptura”.
 
Por fim, foi indicado o isolamento efetivo com uso de barreiras, cercas e/ou tapumes nos para impedir que as pessoas se aproximem da crista do talude e, consequentemente, ocorram eventuais acidentes. As áreas devem ser acessadas apenas pelos agentes da Defesa Civil para fins de monitoramento sistemáticos e/ou pessoas autorizadas por ela. Durante episódios de chuva as inspeções devem ser realizadas com uso de drone durante as estiagens para garantir a segurança dos agentes públicos.
 
A área avaliada pelo geólogo abrange o Setor 74 de Risco (e seu entorno) do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de 2018 da prefeitura. O Setor 74 está classificado como área de risco geológico-geotécnico de grau alto (trecho entre a BR-116 e as Ruas Artur da Silva Araújo e André de Oliveira Valadão).
 
Fotos extraídas do relatório desse Plano de Redução de Riscos permitem visualizar o perfil do solo antes da execução da obra. Detalhe para a ocorrência de blocos rochosos na porção inferior.
 
Esta outra foto mostra o trecho da encosta onde a obra ainda estava sendo executada com detalhe para o perfil do solo. Rocha sã/rocha alterada na base e solo residual jovem no topo. O processo de desmonte e remoção do material rochoso ainda estava em curso, o que foi inclusive relatado pelos moradores do entorno, no que tange à relatos de explosões relacionadas ao desmonte do maciço rochoso.
 
O motivo pelo qual a concepção do projeto e/ou execução da obra não conseguiram estabilizar a encosta devem ser objeto de perícia específica. No laudo, o geólogo destaca: “pois será necessário reunir e avaliar todas as informações geradas da área desde a fase de investigação do terreno (campanha de sondagem e ensaios de laboratório), passando pelas análises de estabilidade dos taludes para a concepção do projeto de estabilização da encosta (concepção dos projetos básico e executivo), até a execução propriamente dita das intervenções (projeto de escavação e desmonte do maciço rochoso na base da encosta, geometria dos taludes, sistema de drenagem e de reforço do maciço, e impermeabilização)”.
 
Portanto, conforme o laudo, “a avaliação executada não teve por objetivo avaliar a causa específica da ruptura ocorrida, já que uma intervenção estrutural estava em curso, mas, apenas, as consequências da ocorrência, no que tange à avaliação do risco a que os moradores do entorno estão submetidos”.
 
Em nota, o município informou que “irá notificar proprietários e os interventores para que iniciem as obras emergenciais e apresentem imediatamente um cronograma das obras necessárias para a estabilização da área, conforme orienta o laudo geológico. Em relação às famílias afetadas, podem comparecer até o Departamento de Habitação para que seja feita análise de cada caso quanto ao direito ao aluguel social”.


 

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